quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Carta de Papai Noel

Por Lamartine 
de Hollanda Cavalcanti Neto
Pólo Norte, 1º de dezembro de 2011,
Prezados pais,
 
Estou escrevendo esta carta para pedir-lhes um presente de Natal. Sei que, partindo de mim, tal pedido pode parecer estranho, mas vou procurar explicar o que está acontecendo, e tenho certeza de poder contar com sua compreensão.
É o seguinte: com essa invasão dos meios de comunicação na vida das crianças — uma verdadeira globalização da informação — elas estão cada vez menos acreditando em mim. Ainda bem que sou corado por natureza, pois tenho passado cada vexame quando elas sentam no meu colo e dizem que não passo de uma invenção comercial! Confesso que não consigo deixar de ficar vermelho...
 Com isso, sinto que meu relacionamento com elas já não é mais o mesmo; e que uma porção de coisas que eu gostaria de dizer-lhes já não terão a mesma repercussão que teriam antes.
Mas o problema não é só esse.
Está acontecendo algo mais profundo, mais sério. Tenho notado — como dizê-lo... — tenho a impressão de que as crianças estão perdendo pouco a pouco aquela inocência que tinham antigamente. 
Aquele brilho nos olhos, aquele maravilhamento, aquela louçania encantadora, tudo isso vem diminuindo e dando lugar a olhinhos meio céticos, a rugas precoces nas testas, a desconfianças decepcionadas.






Fico às vezes com a impressão de que muitas delas têm uma espécie de desilusão generalizada. Uma desilusão tão profunda que as leva, muitas vezes, a nem sequer animar-se a tratar do problema com alguém.
Talvez por isso tenho encontrado casos antes inimagináveis para mim: crianças com insônia, nervosas, agressivas, várias usando drogas, outras deprimidas, e algumas até falando em suicídio.


Mesmo entre aquelas que ainda acreditam em mim, encontro motivo para preocupação. Vejam só o trecho de uma carta que recebi outro dia: 
“Sabe, Papai Noel, tenho estado muito triste. Só vejo mamãe à noite, quando ela volta da faculdade, depois de ter trabalhado o dia inteiro. Papai tem viajado muito, e só vem em casa de vez em quando. E mesmo assim, quando chega, fica assistindo à televisão.


Será que o senhor não conseguiria, neste ano, que eles me dessem de presente um pouquinho de tempo para mim?”
 Outro, que deve ser meio menino-prodígio, me passou este e-mail (até eu tive de entrar na internet, para não ficar defasado):
 “Olhe, Papai Noel, eu não tenho nada para lhe pedir desta vez. Já ganhei bicicleta, mini-carro, todo tipo de jogos, “notebook” de última geração conectado a satélite...
Quebrei a cabeça procurando imaginar o que lhe pedir, mas não consegui. E, entretanto, não estou contente. Sinto uma espécie de falta de ar. Não consigo definir o que desejo. Acho que sinto falta do absoluto. De algo que não me dê uma satisfação apenas passageira. Será que existe algo assim, Papai Noel?”
 Tem também este fax que uma menina me enviou: “Ouvi falar que o Natal não tem nada a ver com essa história de comidas, de idas ao shopping.
Que, na realidade, o Natal é uma festa celebrando o nascimento de uma Pessoa que veio salvar a gente de todo tipo de mal. Que antigamente as famílias se alegravam com isso, e por essa razão comemoravam. É verdade isso, Papai Noel? Se é verdade, então por que ninguém me falou disso ainda lá em casa?”
Confesso que essa situação tem me deixado perturbado.
Há muito tempo que eu já sentia uma certo peso de consciência por ter tomado o lugar de São Nicolau nas festas natalinas.
Embora o conto de que São Nicolau vinha trazer dádivas todas as noites de Natal não seja senão uma lenda — pois ele fazia isso só enquanto estava vivo, e para ajudar aos necessitados — era ao menos uma fábula bonita, elevada, nobre. Afinal, ele era um bispo, um santo, e eu não passo de uma boa “ferramenta de marketing”.
Mas o que tem me deixado realmente perplexo foi constatar que, ao longo dos anos, minha figura tem sido usada de modo cada vez mais desvinculado do verdadeiro espírito de Natal.
Não julgo intenções, apenas registro o fato.
Ora, todos sabemos que o espírito de Natal não existe sozinho. Ele faz parte de um mundo de concepções, de idéias, de ambientes e costumes. É um fruto e, ao mesmo tempo, está na origem de toda uma civilização: a cristã.
Nessa civilização, as crianças aprendiam naturalmente a voltar-se para o maravilhoso, para o belo, para as realidades simbólicas e elevadas que refletem, em última análise, a Deus.
Em Deus e nos seus reflexos elas encontravam aquele absoluto que meu pequeno “internauta” deseja e não sabe encontrar, aquela confiança que vence toda desilusão, aquela certeza de ser amada por seus pais, símbolos de um Pai infinitamente maior.
Por tudo isso, caros amigos, é que dessa vez sou eu que venho lhes fazer um pedido: ajudem-me a restaurar o verdadeiro espírito de Natal. 
Como fazê-lo? É muito fácil. Basta explicar para seus filhos o que significa realmente o Natal: o nascimento do Redentor da humanidade.
Falem-lhes de Jesus, de Maria e José. Dos anjos, dos Reis magos e dos pastores. Do presépio, da manjedoura.
Dediquem tempo e coração a isso. 
Contem-lhes sua vida, os milagres que fez, os ensinamentos que nos deixou. Falem-lhes da Igreja que Ele fundou, e da civilização que, por meio dela, nos legou.
Ajudem seus filhos a compreender que esse tesouro que eles têm na alma, chamado inocência, provém da Inocência absoluta que nasceu para nós naquela noite bendita.
E que, muito mais do que um pretexto para comprar brinquedos, o Natal é a grande ocasião que nós temos de permitir que Jesus nasça no interior de nossas almas. Nasça, viva e atue, de modo a nos unir cada vez mais a Ele.
 
Pode até ser que, com isso, algumas crianças acabem percebendo que o Papai Noel, de fato, não tem muito a ver com a realidade, e deixem de acreditar em mim de uma vez. Mas se isso acontecer, eu me sentirei feliz, pois terei conseguido trazer aos homens o presente de que eles mais necessitam: a ressurreição do verdadeiro espírito de Natal.
 Muito obrigado por sua atenção, e um...
“Feliz Natal!”

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