terça-feira, 6 de setembro de 2011

Chamado universal à santidade


por Mons. João S. Clá Dias


Nós cristãos, enquanto batizados, temos a obrigação de não perder o estado de graça. Se, por fraqueza ou maldade, dele nos vejamos privados, com diligência devemos procurar recuperá-lo. Essa é a chamada perfeição mínima.
No Sermão da Montanha, Jesus não nos impõe a obrigação de sermos perfeitos. Porém, manifesta o desejo de que o aspirar a esse estado constitua um dos pontos essenciais da nossa existência. Além disso, tantos foram os tesouros por Ele deixados à humanidade - o Batismo, a Confirmação, a Eucaristia, etc. - que, só por gratidão a tão imensos benefícios, já seria uma obrigação da nossa parte nos colocarmos a campo para atingir a meta enunciada por Jesus.
Com muita razão, a respeito da universalidade desse dever de santidade, assim se expressa João Paulo II: "É preciso redescobrir, em todo o seu valor programático, o capítulo V da Constituição Dogmática Lumen Gentium, intitulado ‘Vocação Universal à Santidade'. (...) O dom [de santidade concedido à Igreja] gera, por sua vez, um dever que há de moldar a existência cristã inteira: ‘Esta é a vontade de Deus: a vossa santificação' (1 Tes 4,3). É um compromisso que diz respeito não apenas a alguns, mas ‘os cristãos de qualquer estado ou ordem são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade' (...) Como explicou o Concílio, este ideal de perfeição não deve ser objeto de equívoco, vendo nele um caminho  extraordinário, percorrível apenas por algum ‘gênio' da santidade. Os caminhos da santidade são variados e apropriados à vocação de cada um" (3).
São Paulo é incansável em frisar a necessidade da perfeição sem limites, como substância da vocação do cristão: "Bendito seja Deus e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, que nos abençoou com toda a bênção espiritual do Céu em Cristo, assim como n'Ele mesmo nos acolheu antes da criação do mundo, por amor, para sermos santos e imaculados diante d'Ele ..." (Ef 1, 3-4). É comum, ao longo de suas Epístolas, encontrarmos uma verdadeira sinonímia entre os termos "cristão" e "santo", tal era o seu empenho neste particular (4).
Deus é infinito. Portanto, quem é chamado a amá-Lo tem por fim último um Ser ilimitado. O amor nosso é uma potência criada com aspiração por Deus, e por isso diz Santo Agostinho: "Nossos corações foram criados para Vós e só em Vós repousam", ou seja, a própria potência do amor em si mesma visa o infinito. Por isso afirma São Francisco de Sales: "A medida de amar a Deus, consiste em amá-Lo sem medida".
O próprio Jesus, com divina radicalidade, assim reforça o Mandamento dado a Moisés: "Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento e com todas as tuas forças" (Mc 12, 30). Daí se conclui termos o dever de buscar o fim em toda a sua amplitude, e de empregar, para atingi-lo, todos os meios ao nosso alcance.

A verdadeira liberdade


Papa Bento XVI
Homilia de 15 de maio de 2005

      Só numa ordenada harmonia das liberdades, que abre para cada um o seu âmbito, se pode ter uma liberdade comum. Por isso o dom da lei no Sinai não foi uma restrição ou uma abolição da liberdade mas o fundamento da verdadeira liberdade. E dado que um justo ordenamento humano se pode reger apenas se provém de Deus e se une os homens na perspectiva de Deus, para uma disposição ordenada das liberdades humanas não podem faltar os mandamentos que o próprio Deus dá. Assim Israel tornou-se plenamente povo precisamente através da aliança com Deus no Sinai. 
      O encontro com Deus no Sinai poderia ser considerado como o fundamento e a garantia da sua existência como povo. O vento e o fogo, que atingiram a comunidade dos discípulos de Cristo reunida no cenáculo, constituíram um ulterior desenvolvimento do acontecimento do Sinai e conferiram-lhe uma nova amplitude. Naquele dia encontravam-se em Jerusalém, segundo quanto referem os Actos dos Apóstolos, "Judeus piedosos provenientes de todas as nações que há debaixo do céu" (Act 2, 5). E eis que se manifesta o dom característico do Espírito Santo:  todos compreenderam as palavras dos apóstolos:  "Cada um os ouvia falar na sua própria língua" (Act 2, 6). 
      O Espírito Santo concede o dom da compreensão. Ultrapassa a ruptura que teve início em Babel a confusão dos corações, que nos faz ser uns contra os outros o Espírito abre as fronteiras. O povo de Deus que tinha encontrado no Sinai a sua primeira configuração, é agora ampliado até ao ponto de já não conhecer fronteira alguma.
      O novo povo de Deus, a Igreja, é um povo que provém de todos os povos. A Igreja desde o início é católica, esta é a sua essência mais profunda. São Paulo explica e realça isto na segunda leitura, quando diz:  "De facto, num só Espírito, fomos todos baptizados para formar um só corpo, judeus e gregos, escravos e livres, e todos bebemos de um só Espírito" (1 Cor 12, 13). A Igreja deve tornar-se sempre de novo aquilo que ela já é:  deve abrir as fronteiras entre os povos e romper as barreiras entre as classes e as raças. Nela não podem haver esquecidos nem desprezados. Na Igreja existem unicamente irmãos e irmãs livres em Jesus Cristo. 
      Vento e fogo do Espírito Santo devem infatigavelmente abater aquelas barreiras que nós homens continuamos a erguer entre nós; devemos sempre de novo passar de Babel, do fechamento em nós mesmos, para Pentecostes. Por isso, devemos continuamente pedir que o Espírito Santo nos abra, nos conceda a graça da compreensão, de modo que nos possamos tornar o povo de Deus proveniente de todos os povos ainda mais, diz-nos São Paulo:  em Cristo, que como único pão a todos alimenta na Eucaristia e nos atrai para si no seu corpo martirizado na cruz, nós devemos tornar-nos um só corpo e um só espírito.

Novena da Graça a São Francisco Xavier


Origem da Novena



São Francisco Xavier, aparecendo ao Padre Marcello Mastrilli, S. I., que estava agonizante, em Nápoles, curou o milagrosamente e prometeu lhe que todos os que fizessem em sua honra uma novena, começando no dia 4 de março e acabando no dia 12, aniversário da sua canonização, e recebessem dignamente os Sacramentos, num dos nove dias, podiam esperar, com plena confiança, que alcançariam por sua intercessão a graça que pedissem.

Oração

Ó amabilíssimo, e amantíssimo São Francisco Xavier, adoro respeitosamente convosco a Majestade divina e lhe dou fervorosas ações de graças pelos dons singulares com que Vos favoreceu durante a vossa vida, e pela grande glória a que vos elevou depois da vossa morte. Peço Vos com todo o ardor de minha alma, que me alcanceis, pela vossa poderosa intercessão, a importantíssima graça de uma santa morte, como também a graça particular (designar a graça que se deseja). E, se o que eu peço não é segundo a glória de Deus e maior bem da minha alma, alcançai me o que for mais conforme com uma e outra coisa.

Pai nosso, Ave Maria, Gloria ao Pai.

Obs.: O Santo Padre Pio X concedeu (23 março de 1904) aos que fizerem esta Novena, e público ou em particular, duas vezes no ano, indulgência parcial, recitando a dita oração composta pelo mesmo Venerável Mastrilli (martirizado no Japão em 1637); ou, se a não tiverem, recitando Pai nosso, Ave Maria, Gloria ao Pai; e a indulgência plenária, se num dos oito dias que se seguem à novena receberem os Santíssimos Sacramentos da Confissão e da Comunhão e orarem segundo as intenções do Santo Padre.

À esquerda, relíquia do braço de São Francisco Xavier na Igreja de Gesù, em Roma.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Necessidade da correção

por Mons. João S. Clá Dias


A primeira responsabilidade - reconhecer o próprio erro - é de quem o comete. Porém, o zelo, a prudência e o amor a Deus cabem a quem tem a obrigação de advertir. "Aquele que poupa a vara quer mal ao seu filho; mas o que o ama corrige-o continuamente" (Pr 13, 24). Portanto, é falsa ternura deixar de aplicar uma necessária correção, julgando com essa omissão poupar alguma amargura a quem dela necessita. Quem assim se omite, em realidade não só é conivente com a falha praticada, mas demonstra querer mal a quem precisaria do apoio de uma palavra esclarecedora.

Esse sentimentalismo, desequilíbrio e equivocada indulgência confirmam em seus vícios os que erram.É importantíssimo que pais, educadores, etc., cumpram nessa matéria seu dever, pois assim nos ensina o Livro dos Provérbios: "A loucura está ligada ao coração do menino, mas a vara da disciplina a afugentará" (22, 15). Aliás, é sinal de muito amor avisar de suas faltas os inferiores; quando um pai assim procede com seu filho, deseja-lhe o bem e a virtude.
A reciprocidade nesse amor deve ser uma característica de quem recebe o aviso ou repreensão: "Não rejeites, meu filho, a correção do Senhor, nem caias no desânimo quando Ele te castiga, porque o Senhor castiga aquele a quem ama, e acha nele a sua complacência como um pai em seu filho" (Pr 3, 11-12).
Se o superior deixa de advertir os que lhe estão confiados, é claro sinal de que não se sente amado como um pai; ou não ama o inferior como filho, e neste caso não é raro que dele venha até a murmurar. Ao escrever aos hebreus, São Paulo não receia afirmar: "Sede perseverantes sob o castigo.
Deus trata-vos como filhos. E qual é o filho a quem seu pai não corrige? Se, porém, estais isentos do castigo, do qual todos são participantes, então sois bastardos e não filhos legítimos" (Hb 12, 7-8). Pois, de fato, o remorso, a dor de nossas faltas, o peso de consciência, constituem um inestimável dom de Deus.

domingo, 4 de setembro de 2011

São Melquisedec


Houve um personagem no Antigo Testamento que foi uma das maiores prefiguras de Nosso Senhor. São Paulo dedica a ele todo o capítulo 7 da Carta aos Hebreus. É o capítulo que antecede a descrição de Nosso Senhor como Sumo Sacerdote e que São Paulo diz que é o ponto central da sua carta. Trata se de Melquisedec, cuja festa é 26 de agosto. Melquisedec quer dizer "Rei de Justiça".

O Sinaxário etíope conta que após o dilúvio, Deus mandou que Noé enviasse seu filho Sem enterrar os ossos de Adão no centro da Terra, ou seja, no Calvário. Revelou lhe que o Salvador ia ser sacrificado ali. Ele levou consigo Melquisedec, que teria 15 anos. Foi guiado por um Anjo. No Calvário, "Melquisedec, feito Sacerdote pegou 12 pedras e sobre elas ofereceu o sacrifício do pão e do vinho descidos do Céu. Os Anjos lhes preparavam a comida e sua veste era de pele com cinturão de couro.

Flávio Josefo conta que Melquisedec, rei de Salém, foi tão justo que, "por consentimento unânime ele tinha sido feito sacrificador do Deus Todo Poderoso". Salém, de que fala a Sagrada Escritura, é abreviatura de Jerusalém, segundo as tradições judaicas e alguns Padres da Igreja.

Quando Abraão voltou de ter derrotado os assírios e libertado Lot, com apenas trezentos e dezoito homens (o exército assírio era comandado por quatro reis e era imenso), Melquisedec ofereceu pão e vinho, abençoou Abraão e bendisse a Deus por ter lhe entregado os inimigos. Abraão deu lhe a décima parte dos despojos: símbolo de homenagem do sacerdócio do Antigo Testamento, na pessoa de Abraão, ao sacerdócio da nova lei e ao Sumo e Eterno Sacerdote, Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele abençoou Abraão, o que mostra sua superioridade em relação àquele (como ressalta São Paulo na Carta aos Hebreus).

O Sacerdócio de Cristo, prefigurado por Melquisedec, se diferencia do levítico nos seguintes pontos:

a) Diferentemente da maior parte dos personagens do Antigo Testamento, dele não se menciona de quem é filho. Não é israelita, nem da tribo de Levi, como Nosso Senhor.

b) Os levitas cobram o dízimo dos israelitas, mas pagam a Melquisedec na pessoa de Abraão.

c) Quanto à eficácia, o sacerdócio levítico não conduzia à união com Deus, e o livre acesso a Deus, ao contrário do de Nosso Senhor, prefigurado por Melquisedec.

d) Quanto ao número e duração: muitos eram os levitas que se sucediam. O de Nosso Senhor foi um só, que vive eternamente e efetua um único Sacrifício.

e) Os sacerdotes levíticos eram pecadores, Nosso Senhor se oferece a Si mesmo como Vítima imaculada.

Fonte: ECHEVERRÍA, Lamberto de; LLORCA, Bernardino; BETTES, José Luis Repetto. Año Cristiano, v. VIII, Agosto, pp. 921/7, BAC, Madrid, 2005. A parte final, referente à diferença entre o Sacerdócio de Nosso Senhor e o levítico é de SCHÖKEL, Luís Alonso, Bíblia do Peregrino, Paulus, São Paulo, 2006. Redação do Pe. Luiz Francisco Beccari (sermão de 26/8/2011).

Ele parou de beber


por Alexandre de Hollanda Cavalcanti

     Em geral os pais de família são exemplo para seus filhos e os ensinam a enfrentar a vida, a ter uma boa conduta e uma boa educação. Porém outras vezes são os filhos que ensinam a seus pais e estes precisam ter a suficiente humildade de, quando for o caso, saber aprender com seus filhos.
     Este foi o que aconteceu com Juvenal, um pobre trabalhador que tinha três filhos pequenos e sua esposa Nazária ficou grávida do quarto filho. Porém Juvenal, há muito havia encontrado um outro «amor» em sua vida: o álcool. De um copinho pela manhã, passou a dois e depois a três, depois pela tarde e pela noite... A vida de Juvenal não tinha mais sentido, vivia bêbado quase todo o dia.
     As casas que construía ficavam com as paredes sinuosas e as pessoas não o contratavam mais para fazer seus serviços. A comida começava a faltar em casa, pois o pouco dinheiro que conseguia com algum «bico», gastava com bebida.
Nasceu o quarto filho nesta situação. Um bebê lindo, tão bonitinho e que a mãe cuidava com tanto carinho, enquanto o hálito de cachaça era a única parte da «educação» que Juvenal dava a seu filho. Os meses de passaram e chegou o tempo em que a mãe tinha que dar os primeiros alimentos ao menino... porém não havia nada, nem leite tinha em casa.
     O desespero da mãe chegou a tanto que foi pedir à vizinha que lhe ajudasse com um poco de dinheiro para comprar leite para a criança. A bondosa vizinha a ajudou com algumas moedas, o suficiente para comprar o leito. Nazária então pediu ao esposo:

- Juvenal, você pode ir ao mercado e comprar um litro de leite para nosso filho?
- Porém... não tenho dinheiro para isto – respondeu o marido.
- Eu tenho aqui, a vizinha me deu – que vergonha...
- Está bem, eu vou comprar e volto logo.

     Porém, no caminho, um pouco antes do mercado, havia um bar e a tentação começou a bater à porta... Um traguinho só... Tomo uma dose de pinga e compro meio litro de leite... o menino não toma um litro inteiro... E entrou no bar, gastando todo o dinheiro e voltando para casa sem nada, meio bêbado. Tinha vergonha de dizer à pobre esposa que havia caído na tentação.

- Nazária...
- Trouxe o leite? O menino não aguenta mais de fome!
- Sabe Nazária, a tentação foi forte... o demônio...
- O demônio? Não ponha a culpa no demônio, ele tenta a todos, mas só obedecem os que querem.
     A pobre Nazária foi bater de novo na casa da vizinha, mas ela tinha saído e não voltaria antes das dez da noite. Nazária se sentou num canto da casa, triste, sem palavras... em seu coração pedia a Nossa Senhora Aparecida que não deixasse seu filho morrer de fome. Porém pelas três da tarde, sem comer nem tomar nada desde a manhã, o menino de colocou a chorar de tanta fome. Chorava fortemente e a mãe por mais que tentasse, não o conseguia consolar.
     Juvenal, em sua cama, escutava o choro do menino e era tão forte e desesperado, que lhe chegou até o coração como uma lançada. Juvenal se levantou. «meu filho está me ensinando» - pensou em seu interior.
     «Eu não tenho o direito de fazer isto!». Abriu o armário e pegou uma garrafa de aguardente que tinha escondido e jogou-a no chão, despedaçando-a. «A partir de agora, nunca mais tomarei nada de álcool! Meu filho me ensinou a viver!».
     Foi correndo ao mercado e, sem conseguir segurar as lágrimas que lhe corriam pelo rosto, contou ao dono do mercado tudo o que havia acontecido e pediu um pouco de leite, pelo amor de Deus e de Nossa Senhora.
     O bom português, dono do mercado, deu-lhe cinco litro e lhe disse:
- Isto, Juvenal, te servirá para alguns dias. Vem amanhã à minha casa, que tenho uma obra pra fazer e vou te contratar para isto.
     Juvenal voltou contente e a situação difícil o ensinou que, com humildade, deveria aprender do filho esta lição e nunca mais voltou a embebedar-se. A sofrida Nazária agradeceu a Nossa Senhora Aparecida, quem não consegue ficar insensível diante das lágrimas de uma mãe e lhe agradeceu por tão grande auxílio, que mudou não somente a vida de Juvenal, mas de toda a família.


sábado, 3 de setembro de 2011

Cantos Gregorianos comentados

     Em homenagem ao dia de São Gregório Magno, oferecemos a nossos amigos alguns cantos gregorianos comentados por Mons. João Clá Dias, Presidente Geral dos Arautos do Evangelho.



São Gregório Magno

     Hoje se comemora a festa de um dos maiores Santos da Igreja Católica: São Gregório Magno, Papa e Doutor da Igreja. Para muitos autores é considerado o último dos Padres da Igreja do Ocidente.


     À sua organização se deve a perpetuação do Canto Gregoriano na Igreja e por isso, além do vídeo com a história de sua vida e suas virtudes, publicaremos também alguns cantos gregorianos comentados por Mons. João Clá Dias, Presidente Geral dos Arautos do Evangelho.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Não acredito em barbeiros!



Um jovem aproveitava ensolarada daquele sábado para ir ao barbeiro, como costumava fazer todos os meses.
Após alguma espera, em que lia o jornal que estava sobre a mesa, com notícias populares, repleto de violência e degradação, chegou a sua vez.
O barbeiro, como bom italiano, conversava o tempo inteiro enquanto fazia seu trabalho, quer dizer... às vezes ficava empolgado e não conseguia falar sem fazer gestos expressivos com ambas as mãos.
Violência, drogas, problemas matrimonias, escândalos de políticos, eram seus temas preferidos...
Desta vez o barbeiro mudou de tema:
- Eu vi você ontem na Igreja...
- Passo lá todos os dias na volta do trabalho, respondeu o jovem. E o Sr., o que fazia lá.
- Eu não acredito em nada disso, mas morreu um amigo meu e tive que ir na Missa de Sétimo Dia...
- E a próxima vez que vai? Será só na de corpo presente? Perguntou jocosamente o jovem, provocando o velho calabrês.
Com o rosto vermelho o barbeiro respondeu:
- Sabe menino, eu não acredito em Deus!
- Jura? Contestou o rapaz.
- Juro por Deus, quer dizer... Não acredito, e basta ler o jornal pra ver que eu tenho razão.
- Ah, é? Interrogou o jovem.
- Claro! Você acha que se Deus existisse o mundo estava cheio de droga, violência, crime, inveja e tudo o de ruim que tem na terra?
Nessa hora a conversa é interrompida por um mendigo maltrapilho, sujo e descabelado que pedia uma esmola.
Dando-lhe uma moeda, o jovem olhou furtivamente para o barbeiro e disse:
- Sabe, eu não acredito em barbeiros!
O italiano largou a tesoura.

- Como não acredita, você tá louco. Olha eu aqui, sou um barbeiro velho e experimentado.
- Se existissem barbeiros não haveria gente assim cabeluda, suja e de barba desgrenhada.
- Ele vive assim, por que não procura o barbeiro! Se ele viesse aqui eu fazia tudo de graça só pra ver ele limpo.
- Pois é amigo, se o mundo procurasse a Deus ele deixaria o mundo puro como é a alma dEle e não cobraria nada por isso, por que Ele nos ama.
Boa a resposta do jovem, não acham? Pensemos nisso!

A Borboleta Azul



Havia um viúvo que morava com suas duas filhas curiosas e inteligentes. 
As meninas sempre faziam muitas perguntas. Algumas ele sabia responder,outras não. 
Como pretendia oferecer a elas a melhor educação, mandou as meninas passarem férias com um sábio que morava no alto de uma colina. O sábio sempre respondia todas as perguntas sem hesitar.
Impacientes com o sábio, as meninas resolveram inventar uma pergunta que ele não saberia responder.
Então, uma delas apareceu com uma linda borboleta azul que usaria para pregar uma peça no sábio.
- O que você vai fazer? - perguntou a irmã.
- Vou esconder a borboleta em minhas mãos e perguntar se ela está viva ou morta. Se ele disser que ela está morta, vou abrir minhas mãos e deixá-la voar. Se ele disser que ela está viva, vou apertá-la e esmagá-la. E assim qualquer resposta que o sábio nos der estará errada!
As duas meninas foram então ao encontro do sábio, que estava meditando.
- Tenho aqui uma borboleta azul. Diga-me sábio, ela está viva ou morta?
Calmamente o sábio sorriu e respondeu:
- Depende de você... ela está em suas mãos. 
Assim é a nossa vida, o nosso presente e o nosso futuro.
Não devemos culpar ninguém quando algo dá errado. Somos nós os responsáveis por aquilo que conquistamos (ou não conquistamos). Nossa vida está em nossas mãos, como a borboleta azul... Cabe a nós escolher o que fazer com ela.
O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem e no amor a Deus e ao próximo com que as realizamos.
"Por isso, existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis, como por exemplo os Santos."

Fonte: http://textos_legais.sites.uol.com.br

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Por que o nome de Rosário?



Explica São Luís Maria Grignion de Montfort, que Santo Alonso Rodriguez, da Companhia de Jesus, rezava o Rosário com tanto fervor, que via-se, com freqüência, a cada Padre-nosso, sair de sua boca uma rosa encarnada, e a cada Ave-Maria, uma branca igual em formosura e perfume e somente distinta na cor.
      As crônicas de São Francisco contam que um jovem religioso tinha o bom costume de rezar todos os dias, antes do jantar, o Rosário da Santíssima Virgem. Um dia, não sei por que casualidade, faltou a ela, e estando servida a ceia rogou a seu superior que lhe permitisse rezá-lo antes de ir à mesa. Com esta permissão retirou-se para sua cela. Mas, como demorasse muito, o superior enviou um religioso a chamá-lo; e este o encontrou iluminado com celestes resplendores e a Santíssima Virgem com dois anjos perto dele. 
     À medida que dizia uma Ave-Maria, uma rosa saía de sua boca e os anjos colhiam as rosas uma após a outra e as colocavam sobre a cabeça da Santíssima Virgem, que lhes manifestava o seu contentamento. Outros dois religiosos enviados para saber a causa do atraso de seus companheiros viram este mistério, e a Santíssima Virgem não desapareceu até que terminou de rezar a coroa.
      O Rosário é, pois, uma grande coroa, e o terço de cinco dezenas, uma grinalda de flores ou pequena coroa de rosas celestes que se coloca sobre a cabeça de Jesus e Maria. A rosa é a rainha das flores: do mesmo modo, o Rosário é a rosa e a primeira das devoções.


As formigas do Maranhão


Conta o Pe. Manuel Bernardes, clássico escritor jesuíta, num antigo e castiço português, que no Maranhão, no começo de nossa colonização, ocorreu um caso muito curioso de que as formigas, que eram muitas, grandes, e daninhas, para estenderem o seu Reino subterrâneo, e ensancharem os seus celeiros; de tal sorte minaram a despensa dos frades, afastando a terra debaixo dos fundamentos, que ameaçava próxima ruína. E acrescentando delito a delito, furtavam a farinha de pão, que ali estava guardada para cotidiano abasto da Comunidade.
Como as turmas do inimigo eram tão bastas, e incansáveis a toda a hora do dia e da noite, vieram os religiosos a padecer falta e a buscar-lhe o remédio, e não aproveitando alguns, de que fizeram experiência, porque enfim a concórdia na multidão a torna insuperável; ultimamente, por instinto superior (ao que se pode crer), saiu um religioso com este arbítrio: que eles, revestindo-se daquele espírito de humildade e simplicidade, com que seu seráfico patriarca a todas as criaturas chamava irmãs; irmão Sol, irmão lobo, irmã Andorinha etc, pusessem demanda àquelas irmãs formigas, perante o Tribunal da Divina Providência; e sinalassem Procuradores assim por parte deles autores, como delas réus, e o seu Prelado fosse o juiz, que em nome da Suprema Eqüidade, ouvisse o processado e determinasse a presente causa.
      Agradou a traça; e isto assim disposto, deu o procurados dos Padres Piedosos libelo contra as formigas e contestada por parte delas a demanda, veio articulando; que eles, autores, conformando-se com o seu instituto mendicante, viviam de esmolas, ajuntando-as com grande trabalho seu pelas roças daquele país; e que as formigas, animal de espírito totalmente oposto ao do Evangelho e por isso aborrecido de seu Padre São Francisco, não faziam mais que roubá-los, e não somente procediam como ladrões formigueiros, senão que com manifesta violência os pretendiam expelir de casa, arruinando-a. E portanto dessem razão de si, ou quando não fossem todas mortas com algum ar pestilente, ou afogadas com alguma inundação, ou pelo menos exterminadas para sempre daquele distrito.
A isto veio contrariando o Procurador daquele negro e miúdo povo, e alegou por sua parte fielmente: “Em primeiro lugar: que elas uma vez recebido o benefício da vida pelo seu Criador, tinham direito natural a conservá-la por aqueles meios, que o mesmo Senhor lhes ensinara.
Item: que na praxe e execução destes meios serviam ao Criador, dando aos homens os exemplos das virtudes, que lhes mandara: a saber de prudência, acautelando os frutos e guardando para o tempo da necessidade... de diligência; ajuntando nesta vida merecimentos para a eterna... de caridade, ajudando umas às outras, quando a carga é maior que as forças.,.. e também de Religião e piedade, dando sepultura aos mortos de sua espécie como escreveu Plinio... e observou para sua doutrina o Monge Malco...
Item: que o trabalho, que elas punham na sua obra, era muito maior respectivamente, que o deles autores em ajuntar as esmolas; porque a carga muitas vezes era maior que o corpo e o ânimo que as forças.
Item: que suposto, que eles eram irmãos mais nobres e dignos, todavia diante de Deus também eram umas formigas, e que a vantagem do seu grau racional harto se descontava, e abatia com haverem ofendido ao criador, não observando as regras da razão, como elas observavam as da natureza; pelo que se faziam indignos de que criatura alguma os servisse, e acomodasse; pois maior infidelidade era neles defraudarem a glória de deus por tantas vias, do que nelas furtarem sua farinha.
Item: que elas estavam de posse daquele sítio, antes deles autores fundarem; e portanto não deviam ser dele esbulhadas, e da força que se lhe fizesse, apelariam para a Coroa da regalia do Criador, que tanto fez os pequenos, como os grandes e a cada espécie deputou seu Anjo conservador. E ultimamente concluíram, que defendessem eles a sua casa e farinha pelos modos humanos que soubessem, porque isto lhes não tolhiam; porém que elas sem embargo haviam de continuar as suas diligências; pois do Senhor não deles era a terra e quanto ela cria: “Domini est terra, et plenitudo ejus” (Salmo XXIII, 1)
Sobre esta contrariedade houve réplicas, e contra-réplicas, de sorte que o Procurador dos Autores se viu apertado; porque uma vez deduzida a contenda ao simples foro de criaturas; e abstraindo razões contemplativas com espírito de humanidade, não estavam as formigas destituídas de direito. Pelo que o Juiz, vistos ou autos, e pondo-se com ânimo sincero na eqüidade, que lhe pareceu mais racionável, deu sentença que os Frades fossem obrigados a sinalar dentro da sua cerca sírio competente para vivenda das formigas e que elas, sob pena de excomunhão, mudassem logo de habitação, visto que ambas partes podiam ficar acomodadas sem mútuo prejuízo; maiormente, porque eles Religiosos tinham vindo ali por obediência a semear o Grão Evangélico, e era digno o operário do seu sustento; e o das formigas podia consignar-se em outra parte, por meio da sua indústria, a menos custo.
Lançada esta sentença, foi outro Religioso, de mandado do juiz, intimá-la em nome do Criador àquele povo em voz sensível nas bocas dos formigueiros. Caso maravilhoso e que mostra como se agradou deste requerimento Aquele Supremo Senhor de quem está escrito, que brinca com as suas criaturas: Ludens in orbe terrarum!
Imediatamente... saíram, a toda a pressa milhares de milhares daqueles animalejos, que formando longas e grossas fieiras, demandaram em direitura o sinalado campo, deixando as antigas moradas e livres de sua molestíssima opressão aqueles Santos Religiosos, que renderam a Deus as graças por tão admirável manifestação de seu poder e providência!

Fonte: 
Pe. Manuel Bernardes
Nova Floresta
Volume I, Título IV (Anos, Idade, Tempo), L, Invectiva.