segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

O poder de um «santinho»


Enviado por Auro Saburo Mizuka

Santo Antonio Maria Claret (1807–1870), fundador dos Filhos do Imaculado Coração de Maria (Claretianos), dizia numa de suas pregações:
         «A imprensa pode prestar incalculáveis serviços para o bem das almas. Como nem todos podem ir sempre à igreja, os impressos entram e ficam ao alcance das pessoas nas casas. Convencido desta verdade, escrevi um bom número de livros e folhas soltas (folhetos).
         Se numa terra, por exemplo, havia o mau hábito de cantar canções desonestas, mandava logo imprimir um folheto com cânticos espirituais ou moralizadores.  Distribuía pagelas aos adultos e santinhos às crianças. A este propósito vou referir um caso sucedido numa das maiores cidades de Espanha.
     *          *          *
         Numa tarde, ao passar por um bairro para visitar um doente, aproximou-se um menino para pedir-me um santinho. E dei-lhe, com a minha bênção.
         Na manhã do dia seguinte, dirigi-me à igreja onde costumava celebrar Missa. Quando estava fazendo a ação de graças, entrou na igreja um homem alto, corpulento, com bigode e barba espessas. Do seu rosto apenas se via o nariz e a fronte.  
         Perguntou-me com voz trêmula e rouca, se podia atendê-lo em confissão. Respondi que sim, com toda solicitude que deve ter um confessor. E vendo muita gente à porta do meu confessionário, mandei-o para a sacristia, pois achei que devia atendê-lo separadamente.
         Quando me sentei, o homem caiu de joelhos e desatou a chorar tão desconsolado, que não havia modo de tranquilizá-lo. Fiz-lhe várias perguntas para indagar a causa da sua aflição. Entre suspiros e soluços, contou-me o seguinte:
         “Ontem à tarde V. Revma passou pela rua de minha casa. O meu filho viu o senhor e foi correndo beijar-lhe a mão e pedir um santinho. O menino voltou muito contente e, depois de ter olhado e beijado o santinho, deixou-o em cima da mesa e foi para a rua brincar com os colegas.
         Por curiosidade e passatempo peguei a estampa e pus-me a ler o que estava nela escrito. Não sei o que se passou em mim naquele momento. Cada palavra era um dardo a cravar-se no meu peito. Tomei logo a resolução de confessar-me. Passei a noite a chorar e a examinar minha consciência
         Já que Deus se valeu do senhor padre para me fazer entrar no bom caminho, desejava confessar-me consigo.  Sou um grande pecador. Ando pelos 50 anos e não me confesso desde criança.  Tenho sido o chefe de um bando de malfeitores. Ainda haverá perdão para mim?”.
         – Sim – respondi – há perdão para o senhor, visto que Deus é Pai infinitamente bom e cheio de misericórdia. Tenha confiança. Deus chamou-o e o senhor fez bem em não endurecer seu coração e ter resolvido logo a fazer uma boa confissão.
         Em seguida confessou-se, dei-lhe muitos conselhos e a absolvição. Ele ficou tão alegre que não acertava em exprimir-se.
         Se as folhas soltas e os santinhos tivessem produzido só esta conversão, já me daria por bem pago».
         
                                                                    Revista “Cruzada” – Braga, Portugal  – Outubro de 2002

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

O homem: esse louco que não reza

Por Saul Castiblanco

A oração. O homem não é plenamente consciente da potência desse instrumento que está no alcance de suas mãos; e dizemos com segurança que não o conhece, pois do contrário usaria com mais frequência.
Através da oração, falamos com Deus e Deus fala conosco, aspiramos a ele e respiramos nele, e ele nos inspira e respira em nós ", disse São Francisco de Sales, em seu Tratado de Amor a Deus. A oração é, portanto, um viver em Deus. Daí que se entende quando se fala que a oração, feita nas devidas condições, move o coração de Deus. E quem tem a capacidade de mover a Deus pode se unir à capacidade onipotente Dele.
Portanto, dizemos que o problema dos cristãos não é que não tem conhecimento - implícito ou explícito - do altíssimo poder da oração. Mas muitas vezes a agitação do cotidiano, o que chamaríamos de " naturalismo vivencial " causado pela impregnação dos critérios do mundo, - nos afasta da utilização necessária para se falar com Deus, nos faz esquecer a sua importância vital.
As preocupações do cotidiano, do trabalho, da atenção com a família, as exigências da vida social, parecem servir-nos de desculpas para tirar do nosso tempo esses minutos necessários para nos reunirmos com o Criador.
Mas cremos que o problema de fundo é que o naturalismo do mundo vai penetrando de forma imperceptível em nossas almas e nos vai fazendo esquecer que necessitamos recorrer constantemente a Deus, e confiar menos em nossas forças meramente humanas.
Aberta ou veladamente, o mundo nos " grita " que as coisas ocorrem simplesmente por causa daquelas forças naturais que podemos perceber com nossos sentidos. E isso é mentira. Muito acima do que um simples homem é capaz de fazer, está a ação de Deus e seus santos, por meio de sua graça e a atividade dos anjos bons e maus.
Estes são os elementos que primordialmente dirigem a história, também a nossa história pessoal, e a todos eles se aceita ou se rejeita por meio da oração.
De quantas calamidades nos teremos vistos livres porque nosso anjo da guarda nos protegeu, ou porque a rogos da Virgem Maria, Cristo interveio em um momento decisivo ?
Quantos são os benefícios que recebemos, não porque os tenhamos obtido com nosso esforço ou merecido de alguma maneira, mas que nos foi dado gratuitamente pelas mãos divinas, porque alguém rezou por nós? Muitos certamente. Saberemos no dia de nosso juízo.
Entretanto, se é certo que Deus pode nos auxiliar sem que peçamos, Ele normalmente exige esta imprecação que, além do mais, nos une a Ele. E existe algo que definitivamente não
se consegue se não for com o recurso da oração: a prática da virtude, requisito necessário para alcançar a vida eterna.
Não podemos viver como devemos viver, sem a graça obtida pela oração. Não podemos, é necessário repetir. " Nossas meras forças naturais são insuficientes ". Isso é algo que tem que ser gravado com letras de bronze fundido no espírito. Ainda que nosso orgulho e autossuficiência busquem cobrir esta verdade, ela sempre será confirmada pelo fracasso de uma vida que não recorreu à oração.
Então, para contradizer essa voz tênue ou forte - externa e interna - que repete sem cessar que não necessitamos da oração, devemos encontrar e lembrar constantemente as razões para orar, para rezar, seja participando da oração litúrgica ou realizando a oração privada.
E para isso reproduzimos dois textos escolhidos de santos, do elenco que apresenta o ilustre dominicano Frei Antonio Royo Marin em sua importante obra " Teologia da Perfeição Cristã ".
- São Boaventura: Se queres sofrer com paciência as adversidades e misérias desta vida, seja homem de oração. Se queres alcançar virtude e fortaleza para vencer as tentações do inimigo, seja homem de oração. (...) Se queres viver alegremente e caminhar com suavidade pelo caminho da penitência e do trabalho, seja homem de oração (...) Se queres fortalecer e confirmar teu coração no caminho de Deus, seja homem de oração.
Finalmente, se queres desarraigar da alma todos os vícios e plantar em seu lugar as virtudes, seja homem de oração; porque nela se recebe a união e a graça do Espírito Santo, a qual ensina todas as coisas. E além disso, se queres subir até a altura da contemplação e gozar dos doces abraços do esposo, exercite na oração, porque este é o caminho por onde a alma sobe até a contemplação até o gosto das coisas celestiais.
- São Pedro de Alcântara: Na oração a alma se limpa dos pecados, apascenta-se a caridade, certifica-se a fé, fortalece a esperança, alegra-se o espírito, derrete-se as entranhas, pacifica-se o coração, descobre-se a verdade, vence-se a tentação, foge a tristeza, renovam-se os sentidos, repara-se a virtude enfraquecida, despede-se a tibieza, consome-se a origem dos vícios, e nela saltam centelhas vivas de desejos do céu, entre as quais arde a chama do divino amor.



Grandes são as excelências da oração, grandes são seus grandes privilégios. Para ela estão abertos os céus, para ela se descobrem os segredos e para ela estão sempre atentos os ouvidos de Deus.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

O caminho de Santo Agostinho


 Por Millon Barros de Almeida



       O que ajudou Santo Agostinho em sua caminhada ao Bem? Veremo-lo falar no capítulo II do livro VIII a respeito do papel do bom exemplo na história da conversão de Vitorino:

Logo, para exortar-me à humildade de Cristo, escondida aos sábios e revelada ao pequeninos, me recordou ao mesmo Vitorino, a quem ele mesmo havia tratado bem familiarmente estando em Roma, e de quem me referiu o que não quero passar em silêncio. Porque encerra grande louvor de tua graça, que deve te ser confessada, o modo com este doutíssimo ancião – perfeitíssimo em todas as disciplinas liberais e que havia lido e julgado muitas obras de filosófos – mestre de tantos nobres senadores, que em prêmio de seu preclaro magistério havia merecido e obtido uma estátua no Fóro romano (coisa que os cidadãos deste mundo têm por sumo); venerador até aquela idade dos ídolos e participante dos sagrados sacrilégios, aos quais se inclinava quase toda a inchada nobreza romana, olhando propícios já ‘aos deuses monstruosos de todo genero e a Anubis o lavrador’, que em outro tempo ‘havíam estado em armas contra Netuno e Venus e contra Minerva’, e a quem, vencidos, a mesma Roma dirigia-lhes súplicas já, e aos quais tantos anos este mesmo ancião Vitorino havía defendido con voz aterradora, não se envergonhou de ser servo de teu Cristo e infante de tua fonte, sujeitando seu pescoço ao julgo da humildade e subjulgando sua fronte ao opróbrio da cruz (Conf. VIII, ii, 4).

E no capítulo XI fala a respeito dos bons exemplos dados pelas pessoas virgens, que ele via, nos jardins:

Ali uma multidão de meninos e meninas, ali uma juventude numerosa e homens de toda idade, viúvas veneraveis e virgens anciãs, e em todos a mesma continência, não estéril, senão fecunda mãe de filhos nacidos dos gozos de seu esposo, tu, oh Senhor! (Conf. VIII, xi, 27).

Vemos também Agostino tratar, praticamente em toda a obra das Confissões, a respeito da persuasão da inteligência, contudo mostra que a convicção da inteligência não foi suficiente para a aplicação inteira da vontade naquilo que a inteligência ilumina. É o que lhe atormentou por toda a sua vida anterior a conversão; pois sua inteligência o oprimia, dia e noite, impelindo-o para o Bem que desejava, mas por ter a sua vontade ainda débil não conseguiria mover-se inteiramente para a sua meta e todavia não poderia entregar-se totalmente aos prazeres da carne pois a luz da inteligência iluminava também o seu erro.

Qual a solução para este problema tão dilacerante, que atormenta todos aqueles que se vêm em conflito consigo mesmos? Podemos inferir que a aplicação da vontade se dá inteiramente no objeto desejado quando o “sentimos” em nós mesmos (interiormente, talvez), ainda quando este anseio ao objeto desejado, não era tão firme e tão decidido. É o que fará Santo Agostinho exclamar:

Tarde te amei ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei! Eis que Tu estavas dentro e eu, fora. E aí Te procurava e lançava-me nada belo ante a beleza que Tu criaste. Estavas comigo e eu não contigo. Seguravam-me longe de Ti as coisas que não existiriam, se não existissem em Ti. Chamaste, clamaste e rompeste minha surdez, brilhaste, resplandeceste e afugentaste minha cegueira. Exalaste perfume e respirei. Agora anelo por Ti. Provei-Te, e tenho fome e sede. Tocaste-me e ardi no desejo de tua paz (Conf. X, xxvii, 38).

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

O verdadeiro significado de liturgia



Por Diác. Felipe Isaac Pascoal Rocha

O papa Pio XII faz uma consideração sobre a liturgia afirmando que ela engloba um sentido profundamente teológico:
A sagrada liturgia é, portanto, o culto público que o nosso Redentor rende ao Pai como cabeça da Igreja, e é o culto que a sociedade dos fiéis rende à sua cabeça, e, por meio dela, ao Eterno Pai. É, em uma palavra, o culto integral do corpo místico de Jesus Cristo, ou seja, da cabeça e de seus membros.1
Se nesta definição o Papa Pio XII sintetiza o sentido mais profundo da liturgia, não menos importante é o que a Sacrosanctum Concilium acrescenta: “se considera a Liturgia como o exercício da função sacerdotal de Cristo. Nela, os sinais sensíveis significam e, cada um à sua maneira, realizam a santificação dos homens; nela, o Corpo Místico de Jesus Cristo – cabeça e membros – presta a Deus o culto público integral” (SC 7).2
Tendo em vista estas duas considerações do Magistério da Igreja, é importante ressaltar que a liturgia é composta pela Eucaristia – sacrifício e sacramento – pelos demais sacramentos, e também pelos sacramentais, as orações, o Ofício Divino e as múltiplas cerimônias.3 Deste modo pode ela ser determinada como:

«O complexo dos sinais sensíveis de coisas sagradas, espirituais e invisíveis instituídos por Cristo ou pela Igreja, eficazes, cada uma a seu modo, naquilo que significam, e pelos quais Deus (o Pai por apropriação), por meio de Cristo, cabeça e sacerdote, e na presença do Espírito Santo, santifica a Igreja; e a Igreja, na presença do Espírito Santo, unindo-se a Cristo, sua cabeça e sacerdote, por meio dele, como corpo, presta seu culto a Deus (ao Pai, por apropriação)».4
Podemos distinguir nestas definições alguns elementos constitutivos que são interessantes. O primeiro elemento é a alma da liturgia, e que por isso é espiritual e invisível, é a graça, a própria vida de Deus transmitida aos homens, proveniente do Sacrifício de Cristo no alto da Cruz e a eles comunicada pelos sacramentos. O segundo elemento – material e sensível – de instituição divina e em parte determinados pela Igreja são os sinais, as cerimônias, as fórmulas e os objetos que formam os ritos litúrgicos. Em terceiro lugar temos o objetivo último do culto litúrgico, que é dar glória à Santíssima Trindade.5
Relação entre Liturgia, Fé e Teologia
Tendo em consideração os pressupostos que desenvolvemos no ponto anterior, poderia surgir a dúvida sobre a ligação existente entre a liturgia, a fé e a teologia.
Esta pergunta se responde facilmente recordando o significado do princípio “lex orandilex credendi”: em outras palavras, a maneira com que rezamos na liturgia indica tudo aquilo em que acreditamos e, reciprocamente, aquilo em que acreditamos manifesta-se na maneira de orar.
A liturgia é a celebração do Mistério de Cristo e em particular do seu Mistério Pascal. Na liturgia, pelo exercício da função sacerdotal de Jesus Cristo, a santificação dos homens é significada e realizada mediante sinais, e é exercido, pelo Corpo místico de Cristo, ou seja pela Cabeça e pelos membros, o culto público devido a Deus (Comp. CEC 218).
Em certo sentido, a liturgia manifesta de um modo completamente próprio o Magistério da Igreja, pois já Pio XI afirmava ser ela o “organismo mais importante do magistério ordinário [...] A liturgia não é a didascália de um ou outro indivíduo, mas a didascália da Igreja”6: ela nos ensina a razão de ser de toda oração coletiva, e nos faz compreender as verdades teológicas por meio de suas orações, símbolos e analogias. Deste modo “a liturgia é por essência, e deve sê-lo por antonomásia, a lex orandi. [...] a oração litúrgica está saturada de dogma e vivificada poderosamente por ele. [...] Ela contém, de certo modo, todo o tesouro e herança ideológica da Revelação”.7
Assim sendo, o renomado teólogo Vagaggini8 recomenda algumas regras que norteiam tudo aquilo que a Igreja propõe na liturgia: primeiramente, os variados elementos da liturgia implicam, da parte dos fiéis, um sumo respeito, devido ao fato de que ela, por sua natureza, é essencialmente um ato oficial da Igreja e dependente da autêntica Hierarquia eclesiástica. Desde o momento em que o Romano Pontífice aprova de uma maneira explícita algo relativo à liturgia, esta passa a ser imune de qualquer erro. Por outro lado, tudo aquilo que é proposto pelo magistério na liturgia é marcado com um grau de autoridade dogmática diversificado, pois os fiéis dão sua adesão de modos distintos. Um exemplo disto se dá com as liturgias marianas que ao longo da História da Igreja, tiveram uma evolução na qual se destaca o que a Igreja considera como dogma. Assim se deu com relação a Assunção da Santíssima Virgem e a Apresentação de Nossa Senhora no Templo: diversas hierarquias de verdades que a Igreja apresenta e os fiéis aceitam de modos variados. A primeira é uma verdade de fé, enquanto a segunda é uma tradição piedosa da Santa Igreja.
A terceira regra que é proposta não seria propriamente uma “evolução do dogma”, mas a consideração do desenvolvimento dele ao longo dos séculos. Em outras palavras, através da liturgia mariana, demonstra-se como se dá o desenvolvimento teológico dentro da Igreja, fruto do sensus fidelium no que se refere àqueles títulos que são convenientes a Nossa Senhora, objeto da devoção popular muito antes que a Igreja tenha feito disso um reconhecimento oficial. Caso patente é o da Imaculada Conceição, que já desde tempos imemoriais constituía na Igreja uma devoção popular, mas que somente em 1854, após vários séculos, passou a ter uma chancela oficial da Igreja, ao ser aprovada com a bula Ineffabillis Deus, do papa Beato Pio IX. Verificamos outro caso com relação à Mediação Universal da Santíssima Virgem: apesar de que esta devoção não tenha ainda uma aprovação eclesiástica oficial, possui ela uma total aceitação dentre os fiéis, pelo que, apesar de não ser declarada dogma por parte da Igreja, como que já o é para fiéis.
Outra regra que Vagaggini expõe – talvez a mais importante – é que somente por meio do estudo teológico dos diversos pontos doutrinários, propostos na liturgia, é que se pode delimitar qual o grau de submissão que os fiéis devem dar a eles.
Por uma parte a Igreja, em sua liturgia, pressupõe que o povo de Deus conheça o catecismo e o teólogo, a doutrina; e a Igreja faz então a liturgia observar tudo aquilo que é proveitoso ou necessário para levar os fiéis à salvação. Com isso, queremos dizer que a liturgia não procura discutir problemas dogmáticos com os fiéis, mas que ela constituiu uma ponte entre aquilo que o Magistério ensina e o que é conveniente que os fiéis conheçam, para sua santificação. Exemplo disto nos dá a definição dogmática da Assunção da Santíssima Virgem aos Céus. Ao proclamar este dogma, Pio XII evitou mencionar a dificuldade teológica, pela qual se discute se a Santíssima Virgem morreu ou não, falando apenas da Dormitio de Maria e de seu glorioso translado aos céus. Ora, este termo já era utilizado pelo povo fiel desde os séculos IV-V, quando a festa da Dormição da Santíssima Virgem passou a ser celebrada, indicando assim aquilo que o sensus fidelium já intuía, m as que a teologia ainda não havia explicitado.
Já afirmava São Cipriano que nenhum dos homens pode ter a Deus por Pai se antes não possui a Santa Igreja como sua verdadeira mãe9 e tal afirmação se faz verdadeira justamente pelo fato de que, por seu intermédio, os homens são regenerados nas fontes batismais, recebendo assim a Fé e a filiação divina (cf. CEC 168). E a Igreja, justamente pelo fato de ser nossa Mãe, é também nossa educadora na Fé (cf. CEC 169). Ora, a totalidade dos fiéis formados e instruídos pela Santa Igreja não pode enganar-se na fé; e esta sua propriedade peculiar manifesta-se por meio do sentir sobrenatural da fé do povo todo, quando este, “desde os Bispos até ao último dos fiéis leigos, manifesta consenso universal em matéria de fé e costumes. Com este sentido da fé, que se desperta e sustenta pela ação do Espírito de verdade, o Povo de Deus, sob a direção do sagrado magistério que fielmente acata, já não recebe simples palavra de homens mas a verdadeira palavra de Deus (cfr. 1 Tess. 2,13), adere indefectivelmente à fé uma vez confiada aos santos (cfr. Jud. 3), penetra-a mais profundamente com juízo acertado e aplica-a mais totalmente na vida (LG 12).10
Por isso a Igreja interpreta esta doutrina no sentido de ser o sensus fidelium uma assistência concedida a toda a comunidade eclesial, para que permaneça firme na fé e, com tal fé, penetre mais profundamente no Mistério da Igreja. Precisamente foi o que aconteceu com os diversos aspectos da devoção mariana: o povo fiel ao longo dos séculos foi cada vez mais “intuindo” os privilégios e magnificências da Santíssima Virgem e, assim, tornando-a conhecida e amada através do sensus fidelium o “mistério de Maria” foi se tornando mais e mais conhecido.
1“Sacra igitur Liturgia cultum publicum constituit, quem Redemptor noster, Ecclesiae Caput, caelesti Patri habet; quemque christifidelium societas Conditori suo et per ipsum aeterno Patri tribuit; utque omnia breviter perstringamus, integrum constituit publicum cultum”. PIO XII. Mediator Dei, 20 nov. 1947. In: ASS 39 (1947) 17. p. 528-529. (Tradução disponível em: http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_20111947_mediator-dei_po.html, acesso em 13 ago. 2011).

2“Merito igitur Liturgia habetur veluti Iesu Christi sacerdotalis muneris exercitatio, in qua per signa sensibilia significatur et modo singulis proprio efficitur sanctificatio hominis, et a mystico Iesu Christi Corpore, Capite nempe eiusque membris, integer cultus publicus exercetur”. PAULO VI. Sacrosanctum Concilium, 4 dez. 1963. In: AAS 56 (1964) 7. p. 101. (Tradução disponível em: http://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19631204_sacrosanctum-concilium_po.html, acesso em 25 jul. 2011).

3Cf. VAGAGGINI, Cipriano. Op. cit. p. 42-43.

4VAGAGGINI, Cipriano. Op. cit. p. 44.

5RIGHETTI, Mario. Historia de la liturgia. Madrid: BAC, 1955. Vol. I. p. 9-10.

6Apud VAGAGGINI, Cipriano. Op. cit., p. 439.

7“La liturgia es por esencia y debe serlo por antonomasia la lex orandi. […] La oración litúrgica está saturada de dogma y vivificada poderosamente por él. […] Ella contiene, en cierto modo, todo el tesoro y herencia ideológica de la Revelación”. GUARDINI, Romano. Op. cit. p. 9-10. (Tradução do autor).

8VAGAGGINI, Cipriano. Op. cit. p. 446-453.

9Habere jam non potest Deum patrem, qui Ecclesiam non habet matrem”. CIPRIANO. De Unitate Ecclesiae, VI. In: PL 4,503a.

10“In credendo falli nequit, atque hanc suam peculiarem proprietatem mediante supernaturali sensu fidei totius populi manifestat, cum « ab Episcopis usque ad extremos laicos fideles » universalem suum consensum de rebus fidei et morum exhibet. Illo enim sensu fidei, qui a Spiritu veritatis excitatur et sustentatur, Populus Dei sub ductu sacri magisterii, cui fideliter obsequens, iam non verbum hominum, sed vere accipit verbum Dei (cfr. 1 Th. 2, 13), semel traditae sanctis fidei (cfr. lud. 3), indefectibiliter adhaeret, recto iudicio in eam profundius penetrat eamque in vita plenius applicat”. PAULO VI. Lumen Gentium, 21 nov. 1964. In: AAS 57 (1965) 12. p. 16 (Tradução do autor).

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

A procura do tesouro


Por Mons. João S. Clá Dias






"O Reino dos Céus é semelhante a um tesouro escondido num campo que, quando um homem o acha, esconde-o e, cheio de alegria pelo achado, vai e vende tudo o que tem e compra aquele campo."


Os detalhes secundários são omitidos pelo Evangelista. Terão, ou não, sido tratados pelo Divino Mestre? Não temos como o saber. Porém, pode-se imaginar o quanto a exposição de Jesus deve ter sido atraentíssima, pelo fato dEle discorrer sobre os temas através de Sua humanidade e, pari passu, ir iluminando, bem dispondo e auxiliando, pela graça e por Seu poder divino, o fundo da alma de cada um ali presente.



Mateus tem um objetivo concreto em mente. Por isso sintetiza a parábola nos seus elementos essenciais, deixando de lado, por exemplo, a indicação de como foi descoberto o tal tesouro. Conhecemos nós episódios havidos na História, a propósito de descobertas deslumbrantes nessa linha.

Por isso, fica ao encargo de nossa imaginação ambientá-la, completando os pormenores. O homem esconde novamente o tesouro. De uma perspectiva moral, procede bem, não se apropriando das riquezas encontradas. E, ao mesmo tempo, mostra-se prudente não deixando à vista aquelas preciosidades, para evitar as tentações que alguém pudesse ter ao deparar-se com elas.
"Não é necessário adequar este dado [o fato de esconder o tesouro] ao significado da parábola, porque, segundo minha teoria, não é parte dela, senão ornato".7
Maldonado discorre sobre este ponto em particular com muito e sábio critério, glosando considerações feitas por São Jerônimo e São Beda.
Parece-nos curioso que os autores concentrem seus comentários sobre o homem que encontra o tesouro, mas sejam displicentes em considerar o terreno onde estava ele escondido.
Seja-nos permitido fazer uma aplicação a esse propósito.
Olhando para os primeiros tempos da Igreja, vemos quanto custou aos judeus e pagãos convertidos "comprar o terreno" no qual se escondia o tesouro da Salvação. A renúncia exigida era total: família, bens, reputação e até a própria vida. Quão bem procederam, entretanto, os que então abraçaram a Fé Católica! A humanidade atual, qual dos dois papéis representa: o do homem que deseja comprar, ou o do que quer vender? Infelizmente, a quase totalidade dos fatos nos inclina à segunda hipótese. Muitos de nós, hoje em dia, caímos na insensatez de não mais nos importarmos com esse tesouro de nossa Fé, que tanto custou aos nossos antepassados, e pelo qual o Salvador derramou todo o Seu Preciosíssimo Sangue no Calvário. Por quão miserável preço vendemos, alguns de nós, esse tão elevado tesouro, tal como fez Esaú com sua primogenitura, ao trocá-la por um mísero prato de lentilhas! Hoje, mais do que nunca, multiplicam- se as "lentilhas" da sensualidade, da corrupção, do prazer ilícito, da ambição, etc.
Aqui também poderia estar incluída a figura do religioso que se deixa arrastar pelos afazeres concretos e vai se olvidando do "tesouro" pelo qual tudo abandonou em seu primitivo fervor.
Essa plenitude de alegria do homem da parábola deve nos acompanhar a vida inteira, sem interrupção, por ser um dos efeitos da verdadeira Fé. A virtude é um dom gratuito; não se compra. Entretanto, sua posse contínua e crescente custa esforços de ascese, piedade e fervor. É preciso "vendermos" todas as nossas paixões, caprichos, manias, vícios, sentimentalismos, etc., em síntese, toda a nossa maldade. É o melhor "negócio" que se possa fazer nesta Terra.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Oração a São Pelegrino contra o câncer


Glorioso São Pelegrino, que obedecendo à voz da graça, renunciastes, generosamente, às vaidades do mundo para dedicar-vos ao serviço de Deus, de Maria Santíssima e da salvação das almas. Fazei que nós também, desprezando os falsos prazeres da terra, imitemos o vosso espírito de penitência e mortificação. São Pelegrino afastai de nós a terrível enfermidade, preservai-nos a todos nós deste mal, com vossa valiosa proteção. São Pelegrino, livrai-nos do câncer do corpo e ajudai-nos a vencer o pecado, que é o câncer da alma.
Amém.
São Pelegrino, socorrei-nos, pelos méritos de Jesus Cristo Senhor Nosso. Amém.


sábado, 31 de dezembro de 2011

Consagração da família a Nossa Senhora

Ó Virgem Imaculada,
nós Vos consagramos hoje
o nosso lar e todos os que nele habitam.
Que a nossa casa seja como a de Nazaré,
uma morada de paz e de felicidade,
na prática da caridade ,
no pleno abandono à Divina Providência.
Sede o nosso modelo,
ó Maria, regrai nossos pensamentos,
nossos atos e toda a nossa vida.
É bem singelo o tributo do nosso amor,
mas Vós aceitareis, pelo menos,
a homenagem de nossa boa vontade.
3 Ave Marias...

Jaculatória: Ó Maria, concebida sem pecado,
rogai por nós que recorremos a Vós.



Fonte: Nsgraças Devoto

Oração a Santa Edwiges




Ó Santa Edwiges, vós que na terra fostes o amparo dos pobres, a ajuda dos desvalidos e o socorro dos endividados, e no Céu agora desfrutais do eterno prêmio da caridade que em vida praticastes, suplicante te peço que sejais a minha advogada, para que eu obtenha de Deus o auxílio de que urgentemente preciso: (diga aqui o pedido que você deseja fazer). Alcançai-me também a suprema graça da salvação eterna. Santa Edwiges, rogai por nós.
Amém.

Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus



Ao entrarmos no Novo Ano Civil, vamos celebrar no mesmo dia 1 de Janeiro três importantes acontecimentos :
* Solenidade de Santa Maria Mãe de Deus.
* Dia de Ano Novo.
* Dia Mundial da Paz.
Pondo em 1º lugar a Solenidade Religiosa, nós pretendemos, com a Igreja, chamar a atenção dos fiéis para a grande realidade da Maternidade divina de Maria.
Toda a Liturgia da Palavra que é a mesma para os três Ciclos, A, B e C, deste dia, nos faz refletir nesta grande verdade :
- Maria dá ao Mundo Cristo nossa paz !
A Igreja quer com esta Solenidade, não apenas colocar o novo ano, com as suas interrogações, cuidados e problemas, sob a proteção maternal de Maria, mas também lembrar-nos a importância da missão que Ela desempenha na História da Salvação, como Mãe do Salvador.
É precisamente na Maternidade Divina que se encontra o fundamento da relação especial de Maria com Cristo e da sua presença na economia da salvação.
Cristo vem ao mundo com uma função salvadora.
A Sua natureza humana está intrinsecamente destinada a regenerar a humanidade.
Escolhendo Maria para Sua Mãe, Cristo, o Verbo encarnado, associa-A intimamente à obra da reconciliação da humanidade.
Pelo seu SIM (o fiat), Maria entra definitivamente no Mistério da Salvação.
Gerando no tempo a humanidade do Filho, que o Pai havia gerado, desde a eternidade, Maria intervém na regeneração dos homens.
Na 1ª Leitura, o Livro dos Números mostra-nos que a “Bênção Sacerdotal” era ritmada pelo Nome do Senhor, repetido no início de cada versículo, terminando assim:
- “Hão-de assim obter a proteção do Meu Nome para os Filhos de Israel, e Eu hei-de abençoá-los”.(1ª Leitura).
Esta bênção sacerdotal era um augúrio de paz para os filhos de Israel.
Esta “paz” invadiu o mundo com o Nascimento de Jesus, que foi anunciado para glória de Deus e de paz para os homens.
Cada um de nós deve ser um construtor de paz.
Esta bênção da paz é proclamada pelo Salmo Responsorial :
- “Deus tenha compaixão de nós ; Ele nos dê a bênção !”.
Na 2ª Leitura, S. Paulo, dirigindo-se aos Gálatas e hoje também a nós, diz que o Mistério da Encarnação realiza-se na plenitude dos tempos, no termo duma longa expectativa da humanidade, numa maravilhosa manifestação da benevolência divina.
Em Cristo, com efeito, Deus cumula os homens de todas as bênçãos, concedendo-lhes a filiação divina e libertando-os da escravidão da lei mosaica.
- “Deus enviou o Seu Filho, nascido de uma mulher, a fim de resgatar os que estavam sujeitos à Lei, e assim nos tornarmos filhos adoptivos”. (2ªLeitura).
Para produzir, porém, este duplo efeito, a Encarnação realiza-se pela via normal dos homens e da Lei.
Cristo aceita um nascimento humano e a submissão à Lei.
A Lei situa-O na História da Salvação, na História do Seu Povo; Maria situa-O entre os homens, Seus irmãos, que vem libertar e salvar, tornando-os, à Sua semelhança, filhos do Pai.
Maria assume assim um papel insubstituível nesta revelação da Paternidade divina.
É a Mãe de Deus, que concebe Seu Filho por obra e graça do Espírito Santo.
É a Mãe da Igreja, Corpo de Cristo na terra.
Pelo Evangelho S. Lucas, diz-nos que, de todos aqueles que virão a ser adotados em Cristo como filhos de Deus, os pastores são os primeiros a receberem a Boa Notícia.
É, porém, junto de Maria, Sua Mãe, a primeira crente, a totalmente disponível a Deus, que encontram o Salvador e, n’Ele, se encontram com Deus, a quem davam glória e louvores.
A intervenção discreta de Maria ajudou-os, na verdade, a descobrir o verdadeiro rosto de Seu Filho.
- “Maria fixava todas estas palavras e pensava nelas no íntimo do coração”. (Evangelho).
«A Virgem Santíssima, predestinada para Mãe de Deus desde toda a eternidade, simultaneamente com a Encarnação do Verbo, por disposição da divina providência, foi na terra a nobre Mãe do divino Redentor, a Sua mais generosa cooperadora e a escrava humilde do Senhor...
Cooperou de modo singular, com a sua fé, esperança e ardente caridade, na obra do Salvador, para restaurar nas almas a vida espiritual.
É por esta razão nossa Mãe na ordem da graça.»(LG 61).
Maria é totalmente Mãe porque esteve em total relação com Cristo; por isso, honrando-a, o Filho é mais glorificado.
Quanto ao título de Mãe de Deus, exprime a missão de Maria na história da salvação, que está na base do culto e da devoção do povo cristão, uma vez que Maria não recebeu o dom de Deus só para si, mas para o levar ao mundo.
É em nome de Maria, Mãe de Deus e Mãe dos homens, que hoje se celebra em todo o mundo o “Dia da Paz”; aquela paz que Maria, uma de nós, encontrou no abraço infinito do amor divino; aquela paz que Jesus veio trazer aos homens que crêem no seu amor.
A paz deve guiar o destino dos povos e de toda a humanidade!
Se queremos a paz, só a encontraremos em Cristo, o Príncipe da Paz!
Neste dia em que invocamos a proteção de Maria como Mãe de Deus, devemos levantar bem alto o grito da nossa oração e anunciar a todos os povos os nossos desejos de paz.
Por intermédio de Maria, podemos atingir o plano da História da Salvação.
Sobre a Maternidade divina de Maria, diz o Catecismo da Igreja Católica :

466. - ...O Concílio de Éfeso proclamou, em 431, que Maria se tornou, com toda a verdade, Mãe de Deus, por ter concebido humanamente o Filho de Deus em seu seio : «Mãe de Deus, não porque o Verbo de Deus dela tenha recebido a natureza divina, mas porque dela recebeu o corpo sagrado, dotado duma alma racional, unido ao qual, na sua pessoa, se diz que o Verbo nasceu segundo a carne»(DS 2519).

Nasceu-vos hoje um Salvador... Achareis um Menino envolto em panos.