Mostrando postagens com marcador Torpero guerra kamikaze seminario padre religiao cristao. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Torpero guerra kamikaze seminario padre religiao cristao. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Eu fui torpedo humano



Pe. Ooki, S.J.

        Eu cursava o segundo ano da Universidade de Tókio quando estalou a guerra no Pacífico. Ardendo em mim o ideal de fazer alguma coisa grande pela minha pátria e pelo meu Imperador, ofereci-me como voluntário na frota dos submarinos.
  Inventaram então os torpedos humanos: potentes bombas guiadas por voluntários, metidos dentro, que dirigiam e faziam explodir esses engenhos mortíferos no casco dos navios, nossos inimigos.
Como me dominava o ideal apaixonante de fazer o mais possível, alistei-me como voluntário na flotilha (pequena frota) desses torpedos suicidas.
    Nessa altura acreditava sinceramente que o Imperador do Japão era Deus e pensava que, morrendo ao seu serviço, receberia grande recompensa depois da morte.
Cada dia, ao ouvir a lista dos nomes dos meus colegas que tinham dado a vida pela pátria e pelo Imperador na explosão dos torpedos, sentia dentro do meu peito incrível emoção e perguntava-me a mim mesmo:
-- Quando chegará a hora em que também eu entrarei num torpedo?
Durante vários meses vi partir os afortunados companheiros que marchavam para aquela heróica e mortal aventura. Tinha-lhes inveja!

Por fim, ouvi o meu nome! Era chegado o dia do meu grande heroísmo e da minha recompensa para além da morte. Pela manhã soaram as sirenes avisando-nos que estivéssemos prontos para entrar em ação. A minha vibração e entusiasmo foram incríveis quando ouvi, através dos alto-falantes, o meu nome. Era um dos escolhidos para dirigir um torpedo de morte. Ia finalmente dar a vida pela Pátria e pelo Imperador!
Deram-me sete minutos para revistar os motores e os aparelhos.
Vesti o meu traje de escafandro e, antes de me sentar ao volante, lavei o rosto e refresquei a testa, porque queria estar plenamente consciente, sem sombra de enjôo, nos últimos momentos da minha vida. Contendo a respiração, esperava o sétimo minuto para ouvir o sinal de partida e lançar-me disparado para o mar e daí para a eternidade.
Sucedeu então o imprevisto. As sirenes soaram longamente em toque de atenção. Com o meu nervosismo quase punha o motor em andamento e me lançava para a frente sem esperar a hora exata da partida. Contive-me, porém, continuando atento. O que eu ouvi não foi a ordem de marchar, mas uma contra ordem. Deixar os torpedos suicidas e voltar para o porto.
Todos nós, os rapazes da morte, manifestamos ansiedade e contrariedade nos nossos olhares, perguntando uns aos outros: -- Que foi isto? Por que essa mudança tão repentina?
Já tínhamos deixado cartas de despedida escritas aos pais, às noivas, aos amigos, comunicando-lhes que íamos morrer pela Pátria e pelo Imperador. Até tínhamos encarregado alguém de deixar essa correspondência no correio.
Em breve chegou até nós a terrível notícia, mais terrível que nos metermos no torpedo para morrer. Era a madrugada do dia 15 de Agosto de 1945: a guerra tinha terminado. O nosso império japonês estava vencido e pedia a paz sem condições. Mordi a língua de raiva e muitos dos meus companheiros choravam.
Durante longo tempo os nossos corações ficaram invadidos pela sensação da derrota e do fracasso. Numerosos colegas não puderam suportar a idéia de o Japão ter ficado derrotado e acabaram com a vida suicidando-se. Para mim o mais impressionante e doloroso foi ouvir pela rádio a mensagem em que o imperador anunciava a todos os japoneses, que não era Deus, mas um homem como outro qualquer. (Mais tarde soube-se que foram os americanos que o obrigaram a fazer tal declaração). Pareceu-me que tudo aluía (desmoronava) à minha volta. A minha vida estava vazia de sentido. Por que andava eu a combater por um homem como os outros?
Certo dia, dando voltas a tão preocupantes e tristes pensamentos, passei por acaso diante de um edifício em que entravam jovens sorridentes e alegres. Movido pela curiosidade, juntei-me a eles e entrei no recinto. As primeiras palavras que ouvi gravaram-se de tal modo na minha alma, que jamais as esqueci:
"Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, nasceu por nosso amor, amou-nos a tal ponto que deu a sua vida para nos salvar a todos".
Sem saber, tinha entrado pela primeira vez numa igreja católica, onde um sacerdote dirigia a palavra aos fiéis. Foi a primeira vez na minha vida que ouvi falar em Jesus Cristo. Senti aí uma impressão muito profunda.
Eu estava para dar a vida por quem não era Deus, quando tinha sido salvo por um Deus que se fez homem. Compreendi um pouco o seu amor e pensei: "Por este Homem-Deus não havia eu de fazer nada?"
Continuei a freqüentar aquela igreja para instruir-me na Fé católica, até que falei com um sacerdote. A história de Jesus que nasceu pobre e morreu a amar e perdoar foi luz que iluminou a minha alma. Por misericórdia do Senhor recebi a Fé e fui batizado.
Eu queria fazer alguma coisa grande por Jesus Cristo, como antes tinha desejado fazê-la pelo meu imperador e pela minha Pátria.
Hoje, pela graça de Deus, não só sou cristão, mas também sacerdote católico. Convenci-me que só pelo sacerdócio me poderia entregar todo Àquele Senhor que tanto me amou e deu a sua vida por mim. Agora o meu ideal é trabalhar para que todos os meus irmãos japoneses recebam o benefício da fé e a felicidade eterna.