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domingo, 9 de setembro de 2012

O Anjo que apagava os pecados


             S. João Clímaco foi Pai e Mestre do Mosteiro do Monte Sinai, no século VII.
           Naquele deserto viviam centenas de monges que passavam santamente a vida a rezar e a trabalhar. 
           Certo dia chegou ao Mosteiro um rapaz. Bateu e abriram-lhe aquelas portas que para ninguém se fechavam. Dirigiu-se ao Superior, a quem disse:             
         -- Meu Padre, sou um grande pecador, mas Deus tocou-me o coração. Venho arrependido, fazer penitência neste Mosteiro. Quero que o exemplo de tantos santos que aqui vivem me encoraje, a fim de me fazer santo também. Meu Padre, tenha pena de mim e receba-me no número dos seus servos. 
           -- Meu filho, - respondeu S. João Clímaco - bendito seja Deus que te abriu os olhos para conheceres a gravidade das tuas culpas. Entra neste santo abrigo e procura com a oração e a penitência reparar os antigos erros. 
           -- Meu Padre - acrescentou o jovem penitente - Deus lhe pague tanta caridade. Vou pedir-lhe um favor: quero que me dê licença de fazer uma confissão pública. Quero confessar todos os meus pecados diante destes piedosos monges. Ao ouvirem tantas misérias, terão compaixão de mim e rezarão pela minha perseverança.
             S. João Clímaco julgou conveniente satisfazer os desejos daquele jovem arrependido, e mandou que os frades se reunissem na sala do convento. Já estão todos sentados nos bancos de madeira, as cabeças cobertas com os capuzes e as mãos escondidas nas mangas dos hábitos. 
             O rapaz  pôs-se de joelhos no meio da sala, e quando dos olhos brotaram duas lágrimas, começou a declarar os seus enormes desvarios.
              Havia naquele grande salão um altar e sentado ao seu lado encontrava-se um velho frade a quem todos veneravam como santo. Enquanto o pecador ia dizendo as suas faltas, o santo velhinho tinha os olhos cravados no altar, como se estivesse a contemplar alguma cena. E sorrindo com muita suavidade, dava sinais de grata surpresa .
           Acabada a confissão pública, os piedosos monges voltaram para a vida diária dando graças a Deus pela sua misericórdia, que assim convertia os corações afundados no negro abismo dos pecados, fazendo brilhar neles a luz da santidade.  
          S. João Clímaco chamou à parte aquele santo velho que tinha estado todo o tempo a contemplar qualquer coisa no altar com os olhos radiantes de gaudio. E perguntou-lhe se o Senhor Deus o tinha favorecido com alguma visão.
              -- Sim, meu Padre - respondeu o velhinho - enquanto aquele jovem penitente ia declarando suas faltas confessando-as com tantas lágrimas, contemplei um Anjo no altar. Tinha um livro na mão no qual estavam escritos todos os desmandos daquele jovem. À medida que ele os ia declarando, vi que o Anjo os apagava com a sua mão bendita. E o livro ficou limpo e branco, como a alma daquele pecador arrependido.
          S. João Clímaco chamou o rapaz e contou-lhe aquela graça, para que assim aumentasse a sua consolação e a confiança na misericórdia de Deus. E concluiu:-- Coragem, meu irmão! Agora és santo. Tens a alma branca como no dia do teu Batismo. Persevera na oração e na penitência para agradeceres ao Senhor a sua infinita bondade.                
              Jesus veio ao mundo, como Ele próprio disse, “não para condenar, mas para salvar o mundo” (Jo 3, 16).

 Revista Cruzada - Braga – Portugal

domingo, 8 de julho de 2012

A alegria dum sacerdote

'                Ao terminar a costumada visita aos paroquianos doentes, quando entrava na igreja o jovem padre vê uma senhora vir  ao seu encontro:
    -- Senhor Prior, venha a casa de um homem que está muito doente! Ele retornou da África há pouco tempo. É contra a Religião e até diz que não o receberá, mas venha! Ninguém me pediu para o chamar, mas o senhor é sacerdote e ele é uma alma para salvar.
    Um paroquiano que ouviu a conversa intrometeu-se: -- Ora, Senhor Padre, lá o senhor não vai conseguir fazer nada. Não vale a pena incomodar-se, pois já é quase noite e está a cair neve. Vá para a casa paroquial descansar.
    Ao padre nem pareceu  ter ouvido a sugestão do paroquiano. E disse: -- Eu vou agora mesmo, pois  receio não dar tempo de  atender o pobre homem. Vou cumprir  meu dever! – respondeu prontamente o sacerdote, que pôs toda a confiança em Deus.
    Depois de dura caminhada noturna chegou e entrou numa casa miserável. O ar era irrespirável. Numa cama perto da lareira o doente  tossia forte e quase ao desespero. A seu lado, a idosa mãe lhe fazia companhia, agasalhada num cobertor.  
    Ao ver o sacerdote a mulher levantou-se muito surpreendida e o homem doente, ainda com ar de rapagão, muito zangado, gritou-lhe:
    -- Que veio fazer aqui? Vá-se embora, eu não preciso de você. E deu-lhe as costas.
    -- Meu amigo, -- respondeu calmamente o Pároco – acabo de visitar todos os meus doentes e como soube que estava de cama, vim vê-lo também. Venho com muito gosto e sem más intenções. Vejo que ficou um pouco aborrecido, mas apesar de tudo, voltarei amanhã. Virei todos os dias rezar com você enquanto estiver doente. Muito boa noite!
    A mãe saiu com o jovem sacerdote e disse-lhe:
    -- Senhor Padre, não se zangue. Ele não é tão mau como parece. Isto foram as más  companhias em África. E agora com essa doença... compreende? Por favor, não o abandone.
    Começou então para o sacerdote  outra  grande  prova da sua vida. A salvação dessa alma. Anos mais tarde ele recordaria tudo isso com muita alegria, pois as provas mais duras são as que deixam recordações mais consoladoras.
    Visitar o pobre doente todos os dias, percorrer o mesmo trajeto, longo, alguns dias debaixo de chuva e trovoadas, para só ouvir insultos daquela boca doentia, sem uma palavra de agradecimento. . . Que tormento! Que escola de paciência!
                Depois de ouvir sabe lá o quê, o sacerdote descia a encosta, pedindo à Virgem Maria, Refúgio dos Pecadores, que tivesse pena daquela alma. Quantas vezes ele soluçava a meia voz e repetia: “Ó Maria, Vós sois a melhor das mães, que socorre sempre os seus filhos tão necessitados. Desde que estou no mundo, quando minha mãe  me ensinou a pronunciar vosso nome nas horas difíceis, eu tenho recorrido com confiança a Vós, e sempre fui atendido. Peço-vos então por esta alma endurecida pelo orgulho, não para mim, mas para Jesus e para Vós. E  como sou vosso instrumento, farei a vossa vontade. Amem.”
  Depois de rezar esta oração sentia grande paz e compreendia que aquelas palavras de Jesus a Pedro: “Vai, meu filho, vai. Compreenderás tudo mais tarde” eram também para si.
  Já tinha feito vinte e cinco visitas, algumas sem conseguir entrar na casa. Neste dia quando chegou à aldeia disseram-lhe:
  -- Senhor Padre, ele está muito mal, está mesmo a morrer!
  O sacerdote, confuso, quase nem tinha coragem de bater à porta, onde parou, indeciso. Mas resolveu-se a cumprir seu dever de pastor das almas. Bateu, entrou e aproximou-se do leito. Como sempre, o doente virou-se de costas em sinal de desprezo pela presença dele. O Pároco não desistiu e disse-lhe pertinho com um tom carinhoso:
  -- Meu amigo, chegou a hora final de pensar na sua alma. Estou aqui para ajudá-lo!
  Cena horrorizante: o moribundo começa a estrebuchar e insulta-o aos gritos. Depois de uma pausa, acrescentou:
  -- Estou mesmo morrendo. Mas ainda tenho forças para pegar um pau e dar-lhe uma pancada na cabeça!
              O sacerdote aproximou-se do rapaz, senta-se junto aos pés dele e diz:
  -- Aqui você me tem mais de jeito para bater. Faça como quiser.
  O homem calou-se, espantado, e o pároco continuou:
  -- Amanhã a esta hora estarei aqui para o confessar e você há de fazê-lo.
  Saiu pedindo a Nossa Senhora que não abandonasse aquela alma. No dia seguinte, pela vigésima sétima vez entrou na casa.
  Maravilha! Encontrou o doente completamente mudado. O padre sentou-se a seu lado e começou a rezar alto e lentamente, despertando nele sentimentos de verdadeira contrição e depois disse:
  -- Deus Nosso Senhor e a Virgem Maria estão aqui no meio de nós. Não tenha receio, será muito simples. Eu vou fazer perguntas às quais responderá apenas sim ou não.
  À medida que a confissão avançava, as lágrimas do penitente aumentavam. O padre pediu a Deus que lhe desse um sinal comprovativo das boas disposições desta alma. Neste momento o homem começou a falar:
  -- Senhor Padre, quero pedir-lhe uma coisa, Deus vai perdoar-me, mas o senhor perdoe-me também. Tratei-o como se trata um cão. Quis bater-lhe, matá-lo e apesar de tudo o senhor sempre  voltou. Percorreu mais de 300 quilômetros para me ver todos esses dias. Eu fiz a conta. A sua caridade me fez pensar. É um homem sério que acredita no que diz. O senhor perdoa-me?
  Cheio de compaixão o sacerdote respondeu:
  -- Cem vezes, se for preciso! Agora diga comigo o Ato de Contrição.
  No fim da confissão e com um esforço enorme o moribundo conseguiu pôr-se de pé e abraçou o pároco. Meia hora depois recebeu Unção dos Enfermos e o Sagrado Viático. No dia seguinte à noite partiu para a casa do Pai. Morreu tranqüilo.
  Quando o franzino sacerdote desceu a encosta, a sua alma cantava como nunca. Agradecia a Nossa Senhora e aprendia por experiência duas verdades:
  -- que só Deus converte;
  -- que Nossa Senhora é toda-poderosa quando suplica a Deus.
  Este caso, acontecido há mais de cem anos em França, veio traduzido e relatado na revista “Irmã Maria”, órgão da Causa de Beatificação e Canonização da Beata Maria do Divino Coração.
                                                           
                                                                                       Revista “Magnificat” – Braga - Portugal