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sábado, 24 de agosto de 2013

À sombra da guilhotina

Vida do Padre José Coudrin

Paris, 4 de março de 1792. A capela do seminário irlandês está ocupada por jacobinos. O santuário há meses está transformado em clube. Os “heróis” da revolução, sentados diante do altar, de gorros vermelhos, arremessam cartas de jogar sobre a mesa sagrada da comunhão e agitam os copos com os dados. Furiosos e vociferando pragas, passam as cédulas de dinheiro de mão em mão. Origina-se uma contenda. Desembainham os punhais. Um bêbado cambaleia por entre os altercantes. Na mão vacilante tem um cálice sagrado que contém aguardente. A um canto está um indivíduo acocorado, com um arenque numa patena.
- Comportai-vos, cidadãos! Comportai-vos! Balbucia o embriagado.
Não alterqueis por causa de dinheiro. Ainda há que chega a Paris. Cantai! Cantai cidadãos! E com voz animalesca, berra:
- Ah, ça ira, ça ira, ça ira! ...
Todos entram em côro. A matinada que levantam faz estremecer os vitrais da capela com os seus santos.
- A, ça ira, ça ira, ça ira! Les aristocrates à la lanterne! (À forca os aristocratas!).
Enquanto esta cena se passa, na biblioteca da mesma casa está ajoelhado, aos pés do Bispo preso, um jovem com vestes seculares.
No silêncio, o venerando Príncipe eclesiástico impõe-lhe as mãos trêmulas. De leve se movem os seus lábios em oração fervorosa. Em seguida, toma as mãos do recém ungido sacerdote e pergunta com voz trêmula: - Prometes-me a mim e a meus sucessores reverência e obediência?
- Prometo! Responde o ordenado com voz firme.
O Bispo inclina-se então para ele e dá· lhe um ósculo na testa, proferindo as palavras: A paz do Senhor esteja sempre contigo!
Da capela ecoam gritos esganiçados e infernais: - Ah, ça ira, ça ira, ç"a, ira! Les aristocrates à la lanterne! Les prêtres à la lanterne!
- À forca os sacerdotes! Ruge uma voz de permeio e todo o bando repete aos gritos e gargalhadas: - Les prêtres à la lanterne!
- A paz do Senhor seja sempre contigo diz mais urna vez o Bispo.  O neo-sacerdote responde: Amém!
Em seguida, o Bispo fá-lo levantar-se, dizendo-lhe: - José Coudrin, foste ordenado à borda do inferno!
- E, contudo, temos aqui o Céu, volve o sacerdote; e eram sinceras as suas palavras.
- A forca os padres! Uiva a corja de embriagados.
Meio ano mais tarde, as ruas de Paris tingem-se de rubro com o sangue dos mártires. Em França, o inferno está solto. A guilhotina escolhe as suas vítimas de quase todas as aldeias. Como animais, farejam os sacerdotes e arrastam-nos ao cadafalso.
Atrás de um destes, os esbirros e patriotas dão caça especial; invisível, nunca se deixa apanhar e sempre de novo surge por toda parte, nas cidades e aldeias das Dioceses de Tours e Poitiers.
Lá vai andrajoso mendigo pela estrada da aldeia. Em cada porta, estende a mão, pedindo esmolas. Por vezes lhe é concedida a entrada, e, momentos depois, ele profere as palavras da absolvição junto a um moribundo, administrando-lhe os Santos Óleos.
Na praça do mercado ergue-se a guilhotina, que projeta longas e negras sombras sobre a terra. Junto da guilhotina se acha um soldado, que lê um manifesto pregado ao poste dela: "Mil francos de gratificação para aquele que denunciar ao tribunal revolucionário o sacerdote Pe. José Coudrin. Patriotas, cumpri o vosso dever. À forca o sedutor do povo!" Aproxima-se um segundo soldado.
- Boa soma essa, mil Francos! Murmurou o primeiro. Isso eu gostaria de ganhar.
- Tens razão, camarada, concordou o segundo.
- O carrasco saberá onde está escondido o padre.
- Precisamente não o sabe, disse, brusco, o primeiro.
- Como? Ah! Sim! Tens razão, camarada!
E cada qual seguiu o seu caminho. O segundo entrou numa taverna, o primeiro numa casa qualquer, perto do mercado. Breve sua mão benfazeja derramava água batismal sobre a fronte de uma criança. Mais uma vez escapou à guilhotina. Mas algum rasto os esbirros sempre tinham, e, aonde quer que se dirigisse o sacerdote, ameaçava-o a guilhotina.
Um vendilhão vai de casa em casa com uma cesta cheia de ratoeiras.
Nas casas onde entra, depõe as bugigangas, tira do bolso sobre o peito uma patena brilhante e diz: "Ecce Agnus Dei! Eis o Cordeiro de Deus". Reverentes, os homens ajoelham-se e recebem o Pão dos fortes.
José Coudrin, o sacerdote, continua caminhando à sombra da guilhotina. Certa vez, descobrem lhe o rasto. Cercam a casa em que se acha. O sacerdote refugia-se, subindo uma escada, num quarto escondido, situado mais alto. Os revolucionários penetram na casa. Um deles descobre a escada. Já punha o pé no primeiro degrau, quando seu camarada o chamou:
- Cidadão, és um macaco. Julgas que ele teria deixado a escada se tivesse subido por aí?
Momentos depois, os perseguidores, que passam revista em toda a casa, até nos últimos recantos, retiram-se.
Em Paris todos os demônios andam soltos. A cabeça do Rei rola no pó. A Rainha sobe ao cadafalso. Por toda parte se degolam sacerdotes. As igrejas são profanadas. O sacerdote José Coudrin, entretanto, continua andando a sombra da guilhotina. Muitas vezes, precisa descansar durante o dia em cavernas, paióis e touceiras. Não raro, só de noite pode realizar as suas visitas. Os patriotas de Poitiers já o condenam à morte em sessão judicial. Falta, porém, o acusado. De novo pensam tê-lo seguro. Os esbirros já tiram a sorte com colmos de capim a ver quem dentre eles o deveria conduzir à guilhotina. Mais uma vez, porém, Coudrin lhes escapa.
Até nos cárceres penetra, e, confundido com os presos, celebra a Santa Missa, ministrando-lhes o Santo Viático. Ainda desta vez consegue subtrair-se aos seus inimigos. Mas anda sempre à sombra da guilhotina. Os “heróis” da revolução apunhalam-se uns aos outros. Um monstro devora outro. Chega o tempo do Diretório.
Vêm os dias do Bonaparte. Passa o tempo dos horrores. A Igreja ressurge das catacumbas [pensam os ingênuos]. A guilhotina não chegou a pegar José Coudrin.
Seguem-se, contudo, novas e graves perseguições. Napoleão, o corso, engana a Igreja. O Papa é feito prisioneiro em Fontainebleau.
Mas, num recanto de França, o sacerdote José Coudrin levanta altaneiro nova bandeira, que leva como sagrado símbolo os Corações de Cristo e da Mãe de Deus, Corações esses que receberam indizíveis opróbrios nos dias dos jacobinos, Corações a que os mártires se consagravam no patíbulo da morte. E o derradeiro grito das vítimas: Viva o Sagrado Coração de Jesus! Tornou-se um brado de combate.
José Coudrin funda a Ordem dos Sagrados Corações. A Condessa Henriette Aymer de Ia Chevalerie funda, sob o mesmo nome, uma congregação para mulheres. Também ela passava pelo inferno da revolução, chegando a conhecer de perto os horrores da prisão, em que a todo o momento esperava o carro fatal, até que, por fim, a morte de Robespierre lhe abriu a porta da liberdade.
Homens agrupavam-se, decididos a tentar o extremo, possuídos daquele mesmo ardor indômito que enchia o sacerdote que vagava pela França à sombra da guilhotina. Brancas eram as suas vestes. Um manto como o dos Cavaleiros do Sepulcro descia-Ihes dos ombros. Sobre o peito traziam a divisa - os Sagrados Corações, cercados da Coroa de Espinhos e de chamas. Nos dias do terror, todo aquele que trouxesse tal imagem era levado ao cadafalso. Em culto blasfemo, os jacobinos veneravam o coração de Marat para escarnecer do Coração de Jesus. Agora era chegado o tempo da reparação. Reparações queriam prestar os homens e mulheres da nova congregação. Reparação pelas igrejas profanadas, pelos altares derrubados, pelos cálices calcados aos pés e pelas Hóstias profanadas. Aonde chegavam os sacerdotes e irmãos de hábito branco, acendiam-se novamente as velas do Tabernáculo; ali Cristo, em ostensório precioso, sobe novamente ao trono mais alto. Lá não se apaga a chama eucarística da Hora Santa.
No centro de Paris, na Rua Picpus, pulsa o coração da nova grei. Lá está a casa-mãe. É o lugar onde se acham sepultadas as 1307 vítimas de junho de 1794, executadas na Barriere du Trône. Sobre as catacumbas dos mártires queima novamente a chama da caridade e do sacrifício. A toda parte envia José Coudrin a sua milícia branca. Onde quer que a indigência e a miséria clamem por auxílio, pode-se encontrá-la, e, de fato, após os anos do terror, não é preciso procurá-Ia, pois em todas as ruas e caminhos de França se encontra a miséria. Mas por toda parte também se curvam, cheios de compaixão, os samaritanos, enquanto a misericórdia traça o seu caminho ao encalço da miséria. A caridade palmilha as ruas pelas quais se esgueiravam o terror e o desespero.
Crianças andrajosas e abandonadas, que já não sabem benzer-se, encontram mestres carinhosos. Os asilos e as escolas que a chama da revolução reduziu a cinzas são reconstruídos. De povoado em povoado, vão os padres. Em muitas igrejas pregam, prescrevem exercícios espirituais e missões. Vida nova e forte surge dos abismos. Um homem, porém, nem agora encontra descanso. Também nesses anos é insultado, escarnecido, perseguido, expulso de cidade em cidade o grande sacerdote que não temeu os revolucionários, que também não se curva ante o conquistador - José Coudrin, o caminhante à sombra da guilhotina.
O grande [sic!!!] imperador [sic!!!, refere-se a napoleão] passa pelo mundo. Por toda parte marcham os seus exércitos e tremulam as suas bandeiras. Outro personagem, porém, envia os seus soldados muito mais longe que Napoleão os seus exércitos. Também ele é conquistador. Para Coudrin as fronteiras da França são estreitas demais. A maldade no Velho Mundo é demasiada. Dirige o seu olhar para novas terras. Envia os seus discípulos através de todos os mares.
No arquipélago de Havaí, na ilha abandonada da Páscoa, em todas as ilhas do Mar do Sul, implantam o sinal de campanha do Grande Rei. Na América do Sul, no Chile e no Peru pregam esses arautos de Deus o do Evangelho.
Também os soldados da paz vertem o seu sangue. Sangue de mártires derrama-se em todo o mundo. O Padre Aleixo Bachelot é escorraçado das ilhas de Sandwiche. O Padre Claro Fouqué é apunhalado nas ilhas Tuamoto.
No arquipélago do Marechal, dão suas vidas por Cristo um Bispo, sete padres e dez irmãos. Um vagalhão arrebata o Padre Paulo Terlyn do altar onde estava dizendo Missa sobre uma ilha baixa. O vasto oceano tornou-se a sua sepultura, mas todo o rebanho pelo qual o sacerdote reza à vista da morte fica ileso.
Meus filhos serão sempre filhos da Cruz, disse uma vez José Coudrin.
Em toda parte, pelo mundo afora, esta profecia se está realizando. Sobre os túmulos dos mártires levanta-se o reino do Rei eterno. Houve conquistadores que sobre o sangue dos trucidados, sobre montes de caveiras erigiram o seu trono. A tempestade da história varreu-os. O Reino de Deus, que nasceu do Sangue de Cristo e dos seus mártires, é invencível.
Após longo exílio, volta José Coudrin em 1833 para a casa-mãe na Rua Picpus. Aqui o perseguido sem tréguas, o caluniado caminhante à sombra da guilhotina, encontra, após três anos, morte tranquila. O semblante do moribundo encrespa-se num sorriso. Como dissera o Bispo no dia da sua ordenação no seminário irlandês?
- A paz do Senhor seja sempre contigo!
Da capela gritavam então os jacobinos - À forca os sacerdotes! Agora, enfim, tinha a paz, a última e grande paz, para morrer. A primeira luz primaveril espalhava-se sobre os tetos de Paris, mandando um clarão para dentro da cela do convento. Eis que se desenha sobre a cama do doente uma grande cruz. É a sombra da cruz da janela. O doente vê-a. A sua mão mirrada estende-se para agarrar a sombra.
- À Cruz, fala com voz fraca: "Eu morro à sombra da Cruz!"
Ou serão mastro e verga que ali se desenham? Os pensamentos do moribundo transpõem o oceano, procurando os irmãos nas missões.
- Trazei-me um mapa, diz o superior geral. Algo hesitantes, os irmãos desdobram diante do moribundo um grande mapa-múndi. Os dedos brancos deslizam sobre os países e mares. Em alguns lugares se detém:
- Aqui estão os meus filhos e ali também! Senhor, tomai-os sob a vossa proteção!
E os dedos indicam novos países e mares. Erguendo-se um pouco no leito, o moribundo diz:
- A messe é grande, mas os ceifeiros são poucos! Pedi ao Senhor que mande operários para a sua messe.
A sombra da Cruz cai agora sobre o mapa. José Coudrin, pensativo, olha para ela:
- A Cruz se estende sobre todo o mundo, diz. Mas olhai o ponto em que os dois braços se cortam, onde estão as ilhas de Sandwich. A Cruz cai sobre o Mar do Sul.
Será que os seus cuidados mais uma vez querem aproximar-se do leito mortuário? Quererão roubar-lhe a paz da última hora os cuidados pela congregação? Será a sua obra duradoura? Onde estão os recrutas que cerrem fileiras sob a sua bandeira? Onde crescem os homens de que ele, o general moribundo, necessita? Homens com força indestrutível e valor a toda prova? Novamente deslizam os dedos do moribundo pelo mapa. Agora encontraram.
- Irmãos, chama o doente com voz prestes a extinguir-se. Vede cá, irmãos! Aí deveis construir um convento, em Flandres. Lá moram os homens por quem outrora São Francisco Xavier tanto clamava. Lá estão, os novos soldados.
Cansado, reclina-se para trás sobre os travesseiros. Em seguida, mais uma vez se ergue na cama. Sua voz soa não como o balbuciar de um moribundo, mas como a de um general em chefe que dá sua última ordem.
- Erigi um mosteiro em Flandres! É a minha última vontade. O rosto do moribundo ilumina-se.
- A paz de Deus seja convosco! Diz com voz muito sumida e com um sorriso.
A paz de Deus! Amém!
Os irmãos de ordem fecham-lhe os olhos para o sono eterno. A sombra da janela avançou mais, desenhando um retângulo bem definido sobre a coberta.
- Como uma guilhotina, dizem entre si os irmãos.

Três anos após a sua morte, em 1840, a congregação dos Sagrados Corações fundou um convento em Lovaina. A três de janeiro de 1859, dia do seu aniversário, José de Veuster [futuro São Damião] tocou a sineta na portaria desse claustro.
Fonte: Wilhelm Huenermann, "Vida de São Damião". Tradução de Aloysio Sehnem, SJ. Trecho sobre a vida do Padre José Coudrin, Fundador da Ordem à qual pertence São Damião de Veuster. Com pequenas adaptações.


sábado, 22 de dezembro de 2012

O verdadeiro significado do Natal




Difícil é, num mundo marcado pelo laicismo, ter bem presentes o autêntico significado do Santo Natal e o benefício incomensurável que representou
para os homens a Encarnação da Segunda Pessoa da
Santíssima Trindade.


E o Verbo Se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1, 14). Desse modo singelo resumiu o Discípulo Amado o maior acontecimento da História. Suas despretensiosas palavras sintetizam o rico e insondável conteúdo do grandioso mistério comemorado a cada 25 de dezembro: na obscuridade das trevas do paganismo, raiou a aurora de nossa salvação. Fez-Se homem o Esperado das nações, Aquele que tinha sido anunciado pelos profetas.


Cenário tomado pelo sobrenatural


Na noite em que Jesus veio ao mundo, pairava sobre Belém uma atmosfera de paz e alegria. A natureza parecia estar em júbilo enquanto, dentro de uma gruta inóspita, um santo casal contemplava seu Filho recém-nascido.

Ela é a Mãe das mães, concebida sem pecado original, criatura perfeita, na qual o Criador depositou toda a graça. Ao seu lado encontra-se São José, esposo castíssimo, varão justo cujo amor a Deus, integridade e sabedoria o tornam digno de tão augusta Esposa. E a Criança que ambos contemplam é o próprio Deus, que assume nossa natureza para dar a maior prova possível de seu amor à humanidade.

Quão sublime atmosfera envolvia aquele cenário paupérrimo! O ambiente no qual nasceu o Menino Deus devia estar tão tomado pelo sobrenatural que, se alguém tivesse a dita de entrar naquela gruta, ficaria imediatamente arrebatado por toda sorte de graças.

Foi o que ocorreu com os pastores. Após o aviso dos Anjos, correram em direção à gruta e lá encontraram o Rei do Universo deitado sobre palhas. Abismados pela grandeza dessa cena, que contemplavam também com os olhos da Fé, não tiveram outra atitude senão a da adoração. Que extraordinária dádiva receberam, sendo os primeiros a contemplar o Criador do Céu e da Terra feito homem, envolto em faixas, numa manjedoura!

Deus quis apresentar-Se de forma exemplarmente humilde

Considerando as imponentes manifestações da natureza que acompanhavam as intervenções de Deus no Antigo Testamento — o mar se abre, o monte fumega, o fogo cai do céu e reduz cidades a cinzas —, resulta surpreendente constatar a humildade e discrição com que Cristo veio ao mundo.

Não teria sido mais condizente com a grandeza divina que, na noite de Natal, sinais magníficos marcassem o acontecimento no Céu e na Terra? Não poderia, ao menos, ter nascido Jesus num magnífico palácio e convocado os maiores potentados da Terra para prestar-Lhe homenagens? Bastar-Lhe-ia um simples ato de vontade para que isso acontecesse...

Mas, não! O Verbo preferiu a gruta a um palácio; quis ser adorado por pobres pastores, ao invés de grandes senhores; aqueceu-Se com o bafo dos animais e a rudeza das palhas, em lugar de usar ricas vestes e dourados braseiros. Nem mesmo quis dar ordem ao frio para que não O atingisse. Num sublime paradoxo, desejava a Majestade infinita apresentar-Se de forma exemplarmente humilde.

Pois, apesar das pobres aparências, Aquele Menino era a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. NEle dava-se a união hipostática da natureza divina com a humana, conforme explica o renomado padre Boulenger: “União é o estado de duas coisas que se acham juntas. Ela pode realizar-se ora nas naturezas, por exemplo, quando o corpo e a alma unem-se para formar uma só natureza humana; e ora na pessoa, quando se unem duas naturezas na mesma pessoa. Esta última união chama-se hipostática, porque, em grego, os dois termos, hipóstase (suporte) e pessoa, têm igual significação teológica”.

E, depois da união, essas duas naturezas permaneceram perfeitamente íntegras e inconfundíveis na Pessoa de Cristo, que não é humana, mas divina. Por esse motivo é Ele chamado Homem-Deus.


Abismo intransponível


Mas, por que quis a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade encarnar-Se em uma tão inferior natureza? Os nossos primeiros pais foram criados no Paraíso Terrestre em estado de inocência original, portanto em justiça e santidade. Além disso, na sua infinita bondade, Deus conferiu a Adão dons de três qualidades: naturais, estando todas as propriedades do corpo e da alma perfeitamente ordenadas para alcançar o seu fim natural; sobrenaturais, a graça santificante, ou seja, a participação na própria vida de Deus, e a predestinação à visão de Deus na eterna bem-aventurança; e preternaturais, tais como a ciência infusa, o domínio das paixões e a imortalidade, que constituem o dom de integridade.

Como contrapartida a esses imensos benefícios, foi apresentada ao homem uma prova.

Devia ele cumprir de modo exímio a lei divina, guiando-se pelas exigências da lei natural gravada no seu coração, e respeitar uma única norma concreta que Deus lhe dera: a proibição de comer do fruto da árvore da ciência do bem e do mal, plantada no centro do Jardim do Éden (cf. Gn 2, 9-17).

Narra-nos a Sagrada Escritura como a serpente tentou Eva, como caíram nossos primeiros pais e como foram expulsos do Paraíso (cf. Gn 3, 1-23). Em consequência do pecado, boa parte desses privilégios lhes foram retirados. Mas Deus, em sua infinita misericórdia, manteve-lhes os privilégios naturais, como descreve o douto padre Tanquerey: “Contentou-Se de os despojar dos privilégios especiais que lhes tinha conferido, isto é, do dom de integridade e da graça habitual: conservam pois, a natureza e os seus privilégios naturais. É certo que a vontade ficou enfraquecida, se a compararmos ao que era com o dom de integridade; mas não está provado que seja mais fraca do que teria sido no estado de natureza”.

O Pecado Original abriu entre Deus e os homens um abismo intransponível. As portas do Céu se fecharam e o homem contingente só podia oferecer a Deus uma reparação imperfeita da ofensa cometida. E o Filho ofereceu-Se ao Pai para, “fazendo-Se obediente até a morte, e morte de cruz” (Fl 2, 8), restituir ao homem a graça perdida com o pecado. O próprio Criador fazia-Se criatura para, com uma generosidade inefável, saldar nossa dívida.


O caminho da glória passa pela Cruz


Entretanto, por que quis Jesus sofrer o desprezo dos seus coetâneos e os tormentos da Paixão? Estando hipostaticamente unido à Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, qualquer gesto da Sua natureza humana poderia ter redimido a humanidade inteira. Um simples ato de vontade de Cristo teria bastado para obter de Deus o perdão de todos os nossos pecados.

Mais uma vez, deparamo-nos com um sublime paradoxo. Com o exemplo de Sua Vida e Paixão, queria Jesus ensinar-nos que, neste vale de lágrimas, a verdadeira glória só vem da dor. E como o Pai desejava para Seu Filho o máximo grau de glória, permitiu que Ele passasse pelo extremo limite do sofrimento.

“O Filho do homem veio, não para ser servido, mas para servir e dar sua vida em resgate de muitos” (Mt 20, 28). Já na manjedoura em Belém, nosso Salvador estava ciente de ter vindo ao mundo para expiar nossos pecados. É esse o motivo pelo qual em muitos presépios o Menino Deus nos é apresentado com os braços abertos em cruz. Durante toda a sua vida, de Belém ao Gólgota, Jesus não fez outra coisa senão avançar ao encontro do Sacrifício Supremo que Lhe acarretaria o fastígio da glória.


A Terra toda foi renovada


Pode haver ser humano mais frágil do que uma criança, habitação mais simples do que uma gruta e berço mais precário do que uma manjedoura? Entretanto, a Criança que contemplamos deitada sobre palhas na gruta de Belém haveria de alterar completamente o rumo dos acontecimentos terrenos.

Afirma o historiador austríaco João Batista Weiss: “Cristo é o centro dos acontecimentos da História. O mundo antigo O esperou; o mundo moderno e todo o porvir descansam sobre Ele. A Redenção da humanidade por Cristo é a maior façanha da História universal; sua Vida, a memória mais alta e bela que possui a humanidade; sua doutrina, a medida com que se há de apreciar todas as coisas”.

Difícil é, num mundo marcado pelo relativismo e pelo laicismo — quando não pelo ateísmo —, ter bem presentes o verdadeiro significado do Santo Natal e o benefício incomensurável que representou para os homens a Encarnação da Segunda Pessoa da Santíssima Trindade.

Cristo era o varão prometido a Adão logo depois de sua queda, o Messias anunciado durante séculos pelos profetas. Mas a realidade transcendeu qualquer imaginação humana: quem poderia excogitar que Ele seria o próprio Deus encarnado? A vinda de Jesus ao mundo não só abriu-nos as portas do Céu e nos trouxe a Salvação, mas também renovou toda a Terra. Diz São Tomás que Nosso Senhor quis ser batizado, entre outras razões, para santificar as águas. E o mesmo aconteceu com todos os outros elementos: a terra foi santificada porque seus divinos pés a pisaram; o ar, porque Ele o respirou; o fogo ardeu com maior vigor e pureza. Podemos sem dúvida dizer que este nosso mundo nunca mais foi o mesmo depois de nele ter vivido, feito homem, o próprio Criador.

Não é por acaso que se contam os anos a partir do nascimento de Cristo, pois Ele, realmente, divide a História em duas vertentes. Antes dEle a humanidade era uma, e depois passou a ser diametralmente outra. São duas histórias. Quase poderíamos afirmar serem dois universos! (Revista Arautos do Evangelho, Dez/2009, n. 96, p. 19 à 21)


segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Fatos prodigiosos do dia de Natal






          São Boaventura, frade franciscano que viveu no século XIII, recebeu o título de Doutor Seráfico devido à elevação e clareza de sua doutrina. É de sua autoria o Sermão XXI  No nascimento do Senhor , pronunciado na igreja de Santa Maria de Porciúncula, o qual se baseia, segundo atesta o próprio santo, em diversas descrições antigas.
 
Apresentamos abaixo uma tradução do texto original latino.
“São estes, segundo diversas descrições, os milagres manifestados ao povo pecador no dia da natividade de Cristo:
Primeiro:  Uma estrela brilhantíssima apareceu no céu, do lado do Oriente, e nela se via a figura de um belíssimo Menino em cuja cabeça refulgia uma Cruz, para manifestar que nascia Aquele que vinha iluminar o mundo com sua doutrina, sua vida e sua morte.
Segundo:  Em Roma, ao meio-dia apareceu sobre o Capitólio, junto ao sol, um círculo dourado  visto pelo imperador e pela Sibila  tendo ao centro uma Virgem belíssima, portando um Menino, a fim de manifestar que Aquele que nascia era o Rei do mundo, que Se dava a conhecer como o «resplendor da glória do Pai e a figura da sua própria Substância» (Hebr. 1,3). Vendo este sinal, o prudente imperador ofereceu incenso ao Menino, e recusou desde então ser chamado deus.
Terceiro:  Em Roma desmoronou o templo da paz, a respeito do qual, ao ser construído, os demônios se perguntavam quanto tempo duraria; tendo-lhes sido respondido: até o momento em que uma Virgem dê a luz. Este foi um sinal de que nascia Aquele que haveria de destruir os edifícios e as obras da vaidade.
Quarto:  Uma fonte de azeite de oliveira irrompeu em Roma e fluiu abundantemente, por muito tempo, até o rio Tibre, para ficar patente haver nascido a fonte da piedade e da misericórdia.
Quinto:  Na noite da Natividade, as vinhas da Engadda, que produzem bálsamo, floresceram, cobriram-se de folhas e produziram licor, para significar que nascia Aquele que faria o mundo florescer, reverdecer e frutificar espiritualmente, e atrair com seus odores o mundo inteiro.
Sexto:  Cerca de trinta mil rebeldes foram mortos pelo imperador, a fim de manifestar o nascimento d'Aquele que sujeitaria o mundo inteiro à sua Fé e arremessaria os rebeldes no inferno.
Sétimo:  Todos os sodomitas, homens e mulheres, morreram por toda a terra, conforme disse São Jerônimo, comentando o salmo «a luz nasceu para o justo», para evidenciar que Aquele que nascia vinha reformar a natureza e promover a castidade.
Oitavo:  Na Judéia um animal falou, como também dois bois, para que se compreendesse que nascia Aquele que aos bestiais transformaria em racionais.
Nono:  No momento em que a Virgem deu a luz, todos os ídolos do Egito se espatifaram, segundo o sinal que Jeremias dera aos egípcios quando esteve entre eles, para que se entendesse que nascia Aquele que era verdadeiro Deus, único a ser adorado com o Pai e o Espírito Santo.
Décimo:  Logo que o Menino nasceu e foi reclinado no presépio, um boi e um asno ajoelharam-se e, como se fossem dotados de razão, O adoraram, para que se compreendesse que nascia Aquele que a seu culto chamava o povo judeu e os gentios.
 
Undécimo:  Todo o mundo gozou da paz e se colocou em ordem, para que ficasse manifesto que nascia Aquele que amaria e promoveria a paz universal e marcaria os seus eleitos para a eternidade.
Duodécimo:  No Oriente três sóis apareceram, e aos poucos se transformaram em um só corpo solar, pelo que se mostrava que se aproximava do mundo o conhecimento da Unidade e Trindade de Deus, e também que a Divindade, a Alma e a Carne em uma só Pessoa convergiram.
 

  Por tudo isto, nossa alma deve bendizer a Deus e venerá-Lo porque nos libertou e sua Majestade, com tão grandes milagres, se manifestou a nós, povo pecador”.


terça-feira, 16 de outubro de 2012

Santa Edwiges, apoio certo nos momentos difíceis


Ela nasceu em plena Idade Média, no ano de 1174 numa região chamada Silésia, que ficava entre a Alemanha e a Polônia.
Seus pais eram nobres e deram à pequena Edwiges uma cuidadosa educação, baseada na Fé e no amor a Deus e ao próximo.
Naquela época as moças casavam-se muito cedo e, com apenas 12 anos, Edwiges casou-se com o Duque da Silésia, Henrique, que depois foi também Duque da Polônia.
Esposa exemplar, a Duquesa Edwiges em pouco tempo conquistou todos os que estavam sobre suas ordens, através da forma carinhosa de tratá-los. Transformou seu lar num grande templo de Deus. Fiel ao Mandamento divino, ela foi mãe pela primeira vez aos treze anos e teve, no total, seis filhos. Aos 32 anos, com o consentimento de seu marido, fez o voto de castidade.
Seu espírito de oração e sua profunda intimidade com o sobrenatural robusteciam sua fé e seu vigor nas dificuldades. Para alcançar a conversão dos pecadores, submetia-se ao sacrifício de jejuns diários, limitando-se a comer alguns legumes secos nos Domingos, Terças, Quintas e Sábados. Nas Quartas e Sextas-feiras somente pão e água.
No tempo do Advento e da Quaresma, Edwiges se alimentava só para não cair sem sentidos. O esposo não aceitava aquela austeridade. Numa Quarta-feira de Quaresma ele esbravejou por não haver vinho à mesa, mas somente água. Edwiges então ofereceu-lhe uma taça com água e ao entregá-la ao marido, estava transformada em vinho. Este foi um dos muitos milagres que ela realizou.
Algum tempo depois Edwiges caiu vítima de uma grave enfermidade. Foi preciso que Guilherme, Bispo de Módena, representante do Papa para aquelas regiões, exigisse com uma severa ordem a interrupção de seu jejum. A Santa obedeceu, mas ela mesma dizia que isto era mais mortificante do que a sua própria doença.
Com o passar do tempo Edwiges desapegou-se das coisas materiais e foi morar com seus amigos nas dependências do Mosteiro.
A Duquesa Edwiges rezava diariamente o Ofício Divino na Capela do Castelo, nunca o abandonando mesmo diante das maiores dificuldades. Era comum os nobres assistirem a Santa Missa em seu próprio castelo, mas ela fazia questão de ir à Igreja assistir o Santo Sacrifício junto com o povo.
Seu amor ao Santíssimo Sacramento era algo admirável. Isto a levava a assistir não apenas uma Missa ao dia, mas todas as Missas que pudesse se fazer presente.
Grande admiradora de São Bernardo de Claraval. Ela fazia a constante meditação da Paixão e Morte de Jesus e levava as pessoas da corte a fazerem o mesmo.
Como Duquesa da Silésia e da Polônia, ela espalhou por toda a parte a devoção à Santíssima Virgem. Costumava levar consigo uma pequena Imagem de Nossa Senhora, e, de vez em quando a colocava diante de si para rezar. Com esta imagem ela abençoava os doentes e necessitados, alcançando-lhes a cura.
No momento de sua morte, Santa Edwiges segurava com tanta força esta imagem, que não a conseguiram tirar de sua mão e assim ela foi sepultada com a Imagem de Nossa Sernhora na mão esquerda. Anos depois, quando foi exumada, os três dedos que seguravam a imagem estavam intactos.
Edwiges dedicou toda sua vida na construção do Reino de Deus. Exerceu fortes influências nas decisões políticas tomadas pelo marido, interferindo na elaboração de leis mais justas para o povo. Junto com o marido construiu Igrejas, Mosteiros, Hospitais, Conventos e Escolas. Por isto, em algumas representações a Santa aparece com uma Igreja entre as mãos.
Além da oração e da penitência, a Duquesa destacava-se por seu amor aos pobres e sofredores. Encontrando duas mulheres desempregadas, convidou-as a cozinhar para os pobres em seu castelo. Na realidade a própria duquesa alimentava-se da comida preparada para os indigentes.
Nobre e de finíssima educação, Santa Edwiges era, entretanto, modelo de humildade. Além do jejum, ela usava a disciplina e o cílício, privava-se do sono e andava muitas vezes descalça nas regiões nevadas de seu país.
Ela tinha um carinho especial pelas mulheres e crianças abandonadas. Encaminhava as viúvas para os conventos onde estariam abrigadas em casos de guerra e as crianças para escolas, onde aprendiam um ofício. Era misericordiosa e socorria também os endividados. Em certa ocasião, quando visitava um presídio, ela descobriu que muitos ali se encontravam porque não tinham como pagar as suas dívidas. Desde então, Edwiges saldava as dívidas de muitos e devolvia-lhes a liberdade. Procurava também para eles um emprego. Com isto eles recomeçavam a vida com dignidade, evitando a destruição das famílias em uma época tão difícil como era aquela do século 13.
Assim, Santa Edwiges, é considerada a Padroeira dos pobres e endividados e protetora das famílias.
Depois da morte do marido e tendo perdido quase todos os filhos, Santa Edwiges foi morar no convento cirterciense, dedicando inteiramente sua vida para ajudar os pobres e necessitados, além de libertar os prisioneiros e unir as famílias.
Pouco tempo depois, os mongóis invadiram a Polônia. Seu filho Henrique II preparou-se para enfrentar os inimigos. Porém, Santa Edwiges pediu que ele esperasse a chegada dos reforços de seu exército. Não dando ouvidos aos conselhos da mãe, Henrique partiu para o combate e morreu no campo de batalha em abril de 1241
Ao saber da notícia da morte do filho, Edwiges, voltou os olhos ao céu e disse: “Agradeço a ti, Senhor, por teres sido tão bom para comigo e ter-me dado um filho que sempre me amou, respeitou nunca deu motivo de tristeza. Embora eu desejasse tê-lo vivo, sei que ele está unido ao Salvador e com ele eu me uno também. Humildemente recomendo a Ti, Senhor, a sua alma”.
No ano seguinte, 1243, Edwiges adoeceu várias vezes e em uma delas encontrou-se realmente muito debilitada. Pediu ao Padre Mateus, monge cisterciense, que lhe administrasse a Sagrada Unção dos Enfermos. Assim ela se prepara para a passagem desta vida para a eternidade. Foram dias de muitas orações. Edwiges recebeu visitas de muitos Santos. Finalmente no dia 15 de Outubro de 1243 a Duquesa Edwiges da Silésia deixou este mundo, entrando no Reino dos Céus. Como no dia 15 de Outubro celebra-se Santa Teresa de Ávila, a comemoração de Santa Edwiges passou para o dia 16 de Outubro.
Partindo desta terra, Santa Edwiges mostrou a todos que, continuando a vida após a morte, a pessoa verdadeiramente santa faz por seus irmãos muito mais do que fazia na terra. Se em vida ela auxiliava os pobres, doentes, os desempregados e os endividados de seu reino, subindo aos céus ela continua auxiliando não só os de seu reino mas os de todo o mundo. Se temos alguma dificuldade em nossa vida, em nossa família, recorramos com confiança a Santa Edwiges e tenhamos a certeza de que ela será nossa aliada junto a Deus, por intermédio de Maria.

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