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quinta-feira, 3 de dezembro de 2015
sábado, 17 de outubro de 2015
O Milagre de Calanda
Jean Martin Charcot, famoso líder do positivismo “religioso” do século XIX, certa vez comentou: “Ao consultar o catálogo de curas chamadas milagrosas, nunca se tem podido comprovar que a fé tenha feito reaparecer um membro amputado”.
Pois
bem, foi isso exatamente o que aconteceu em Calanda: uma perna amputada foi
reimplantada miraculosamente depois de mais de dois anos de enterrada. Este
acontecimento extraordinário, sobrenatural, foi estudado exaustivamente, com
todo o rigor científico, por Messori no seu livro “O grande milagre”.
Cirurgiões
e enfermeiros realizaram sucessivamente a cauterização do toco da perna com um
ferro em brasa. O processo e a investigação foram abertos 68 dias depois e se
prolongaram por muitos meses, sendo presidido pelo Arcebispo de Zaragoza,
assistido por nove juízes, com dezenas de testemunhos e um rigoroso respeito às
normas prescritas pelo Direito Canônico.
A
sentença do processo declarou que a perna reimplantada de maneira tão repentina
era a mesma que fora cortada e em seguida enterrada. Este fato foi certificado
apenas 3 dias depois de que ocorrera e no mesmo lugar do acontecimento, por um
notário (de outra cidade e, portanto, sem relação com o caso), por meio do
habitual instrumento legal, garantido igualmente pelo juramento de muitas
testemunhas oculares.
A
partir do testemunho do protagonista e de outros testemunhos, se chegou à
conclusão de que o milagre foi devido à intercessão de Nossa Senhora do Pilar,
a quem o jovem sempre fora particularmente devoto, à qual se havia encomendado
antes e depois da amputação de sua perna, e em cujo santuário de Zaragoza tinha
pedido e obtido autorização para pedir esmola.
Quando
pode enfim sair do hospital com uma perna de madeira e duas muletas, untava
diariamente o seu toco de perna com o azeite das lâmpadas acesas na Santa
Capela do Pilar. Isto é precisamente o que sonhou que estava fazendo, em
Calanda, na noite em que adormeceu com uma única perna e foi despertado por
seus pais poucos minutos depois, possuindo outra vez as duas pernas.
Sobre
a verdade do fato nunca se levantou voz alguma de dúvida, nem na ocasião, nem
depois, nem no povoado, nem em nenhum outro lugar. Após a conclusão positiva do
processo, o próprio Rei da Espanha, Felipe IV, ordenou que chamassem ao seu
palácio de Madrid o jovem do milagre, ajoelhando-se em sua presença para
beijar-lhe a perna milagrosamente “restituída”.
A
forma como aconteceu o acidente, em julho de 1637, está assentado no livro de
registros do Hospital Real de Valência, no dia 3 de agosto do mesmo ano,
detalhando como ia vestido, e autenticado com a assinatura do encarregado do
registro (Pedro Torrosellas). A constatação do processo avançado de gangrena no
Real Hospital de Nuesta Senora de Gracia, em Zaragoza, consignado na consulta
médica presidida pelo professor Juan de Estanga, diretor daquele departamento
da universidade de Zaragoza; a amputação da perna direita feita pelos
cirurgiões Estanga e Millarnelo; a maneira como foi depositada a perna pelo
praticante Juan Lorenzo Carcia na capela do hospital e mostrada ao capelão e
administrador do mesmo hospital, Pascual do Cacho, etc., etc…
O
médico lhe advertia que, além da possível infecção, o óleo mantinha uma umidade
que retardava a completa cicatrização da ferida. Durante toda sua estadia em
Zaragoza, Miguel Juan Pellicer passava o dia pedindo esmola na porta da
Basílica do Pilar. À noite ia dormir no “Mesón de las Tablas” quando tinha
dinheiro para pagar ao proprietário; se não, dormia num banco do hospital. Em
marco de 1640, Miguel Juan Pellicer, esgotado pela vida miserável que levava,
decidiu voltar a Calanda apesar do seu desejo de ficar junto à Basílica de “La
Virgen del Pilar.”
Todos
em Calanda e nas vilas limítrofes por onde Miguel Juan Pellicer, montado num
jumento, ia pedindo esmola, conheciam o jovem sem a perna direita.
Dois
anos e quase cinco meses após a amputação da perna direita, precisamente no dia
do 16º centenário da visão que teve de Nossa Senhora, ainda viva, o Apóstolo
Santiago e do aparecimento do Pilar na quinta feira 29 de marco de 1640, por
volta das dez horas da noite, Miguel Juan Pellicer abandonou a conversa e, foi
deitar, pois se encontrava especialmente cansado.
Pouco
depois, Dona Maria Blasco, a mãe, foi ver se o filho mutilado estava bem
coberto. Deu um grito de estupor, e acudiu o pai. Por baixo das cobertas
apareciam dois pés! Após os primeiros instantes de surpresa, levantou as
cobertas: aí estava de novo, inteira e sadia, a perna direita, da qual até
momentos antes lhe faltava a metade. Miguel Juan só sabia explicar que se havia
encomendado, como todas as noites, à Virgem do Pilar, e que sonhara que estava
na Basílica untando a ferida uma vez mais com o óleo das lâmpadas.
Nessa
mesma noite acudiram a ver o incrível milagre o soldado Bartolomé Ximeno, e os
vizinhos Miguel Barraxina e esposa Úrsula Means. Os três, minutos antes, estiveram conversando com o coxo e
vendo como tirara a perna de madeira e os panos antes de retirar-se a dormir.
Naquela mesma noite foi chamado e veio o Pároco, Pe. José Herrera.
No
dia seguinte de manhã a Igreja estava cheia de pessoas que viram e agradeceram
a Deus a recuperação da perna direita de quem todos conheciam privado dela até
a véspera. Reconhecimentos posteriores mostraram que a perna direita,
milagrosamente recuperada, conservou sempre cicatrizes perfeitamente fechadas
das feridas que tivera antes de ser amputada, principalmente a da grande ferida
provocada pela carreta e que ocasionara a gangrena. Havia também a cicatriz,
perfeitamente fechada como todas as outras, onde se havia feito a amputação.
Tratava-se da mesma perna que havia sido amputada!
A
mesma perna que havia sido enterrada quase três anos antes! Ficara “a marca”, a
conhecida condescendência divina para uma insuperável observação científica.
Quando
a notícia do milagre chegou a Zaragoza, mandou-se verificar no Cemitério do
Hospital Real. Sob a direção do
Dr. Juan Lorenzo García comprovou-se que a perna, ou os ossos que deveriam
ficar dela, havia desaparecido, sem que ninguém antes tivesse mexido na terra!
A
recuperação de Miguel Juan Pellicer, como em todo milagre, foi instantânea, e
também “por etapas”. A perna direita, durante os três primeiros dias após a
recuperação instantânea, estava fria. Sua cor era apagada, algo roxa. E os
dedos do pé estavam permanentemente curvados, os nervos contraídos, de forma
que durante estes três dias Miguel Juan Pellicer, perante todas as autoridades
e numeroso povo que o visitava, não podia apoiar a perna firmemente no chão,
nem podia prescindir da muleta que usava.
Passados
esses três dias, as mesmas autoridades e o povo puderam constatar que Miguel
Juan Pellicer agora caminhava perfeitamente, o pé ficara normal. Mas faltava
ainda outra etapa? A largura ou espessura da perna direita, a recuperada, era
claramente menor que a grossura da perna esquerda. Miguel Juan Pellicer, a 25
de abril, viajou com seus pais a Zaragoza para agradecer à Virgem do Pilar.
Durante
o trajeto, um cirurgião lancetou o talão nas suas pesquisas, fato que obrigou
Miguel Juan Pellicer a mancar um pouco novamente. Mas logo passou. Miguel Juan
quis permanecer em Zaragoza por algum tempo. Ia com frequência à Basílica do
Pilar, onde confessava e comungava cada sete dias, e comprazia-se em continuar
ungindo sua perna direita, mais débil, com o óleo das lâmpadas.
“Pouco
a pouco a perna direita ficou igual à esquerda (…). Quando voltou a Calanda, os
vizinhos maravilharam-se de vê-lo caminhar e correr alegremente. Como deram
testemunho (…). Notaram também que o jovem podia realizar movimentos de
esticamento até levantar o pé à altura da cabeça. Assim completara-se o milagre
até a perfeição total”(48).
A
Prefeitura de Zaragoza, a 8 de maio de 1640, reuniu-se em conselho
extraordinário e plenário, e nomeou três procuradores para pesquisar o caso,
além de solicitar do Sr. Arcebispo que instaurasse um acurado processo
canônico, a expensas da Prefeitura. Conservam-se todas as atas de ambos os
inquéritos.
O
inquérito da Prefeitura começou só dois meses depois do milagre. O canônico, só
após três meses. Bem contemporâneos dos fatos. Inquéritos detalhadíssimos.
Muitas comprovações. Depoimentos de multidão de pessoas que conheceram e
conviveram com Miguel Juan Pellicer, antes e depois do acidente, antes e depois
da amputação.
Vi
um grande tapete que há no Palácio Real de Madri, representa o Rei Felipe IV
beijando a perna regenerada de Miguel Juan Pellicer. Lord Hopton, embaixador da
Inglaterra na Espanha, certificou independentemente que esteve presente quando
El-Rei se ajoelhou, descobriu a perna recuperada e beijou a cicatriz da
amputação.
Foram
realizadas recentemente novas pesquisas históricas a respeito, com levantamento
abundante e irrefutável de documentos.
O
milagre com “O coxo de Calanda” ocorreu em 1640. Somente em 1959 se realizou
com sucesso a primeira operação de recolocar uma perna cortada. Os cirurgiões
do Hospital Mont-Eden, de Hayward (Califórnia – USA), conseguiram recolocar uma
perna, mas imediatamente ao acidente (não quase três anos depois), sadia (não
gangrenada) e que ficara ainda unida ao corpo por consideráveis partes de carne
(não uma perna enterrada!). E o maravilhoso êxito da cirurgia humana precisou
meses de cuidados médicos antes de o paciente receber alta.
Miguel
Juan e seus pais examinaram a perna amputada descobrindo imediatamente sinais
inconfundíveis que permaneciam nela. “O mais notório e principal, a cicatriz
originada pela roda do carro que lhe fraturara a tíbia; outra cicatriz, menor,
ocasionada pela extirpação, na adolescência, de um abcesso; e, por último, dois
profundos sinais de cortes provocados por um arbusto de espinhos, e as marcas
da mordida de um cachorro”.
Quando
amanheceu o 30 de março, e se difundiu a notícia por todo o povoado, Pe. Jusepe
se aproximou da casa dos Pellicer com muita gente. Entre estas o primeiro
magistrado, o juiz que era ao mesmo tempo o responsável da ordem pública,
Martín Corellano. Acorreram também o jurado maior, o prefeito Miguel Escobedo,
o “jurado segundo”, Martín Galindo, e o notário real Lázaro Macario Gomez.
Encontravam-se também os dois cirurgiões locais, que certificaram o fato de
maneira profissional. Ambos declarariam ter que render-se à evidência, que
havia deixado por terra sua instintiva incredulidade. O notário lavrou uma ata
notarial constatando o fato ocorrido.
Tratava-se
de uma expedição inesperada à que devemos um documento extraordinário, para não
dizer único, como único é o caso que aparece neste documento legal. Estamos
ante uma intervenção divina testemunhada por uma ata notarial, diante de um
milagre com a garantia de um documento ajustado à normativa vigente e
corroborado por dez testemunhas oculares, escolhidos entre os de maior
confiança e melhor informados dos muitíssimos disponíveis. E como se não
bastasse, a ata notarial milagre foi
escrita e autenticada, passadas algo mais de 70 horas depois do sucedido e no
próprio lugar onde ocorrera.
Observou
o historiador Leandro Aína Naval: “trata-se de um Ato Público (ata notarial,
diríamos hoje) documento de máxima autoridade em todo tempo, que se aproxima ao
ideal exigido por alguns racionalistas para a comprovação dos milagres na sua
vertente histórica”.
Mais
tarde em outubro de 1641, Felipe IV, rei de Espanha, no meio da corte
espanhola, rodeado de todo o corpo diplomático interrogou publicamente a Miguel
e aos relatores do processo. Verificou ele próprio a reimplantação miraculosa
da perna, e, diante do assombro de todos, ajoelhou-se e beijou a perna, fazendo
com isso um verdadeiro ato de Fé.
A
homenagem de Felipe IV naquela manhã de outubro foi como o selo definitivo que
a autoridade civil pode dar a um acontecimento. O rei da Inglaterra, Carlos I,
(cabeça da seita anglicana, inimiga da Espanha), informado pelo seu embaixador,
ficou convencido do milagre, até o ponto de defendê-lo perante os “teólogos” da
sua corte, que ficaram escandalizados.
Não
consegui descobrir nenhum argumento para dar um mínimo de credibilidade à
suspeita ou à dúvida do milagre. Quem rejeitasse a verdade do acontecido em
Calanda teria que pôr também em dúvida toda a História, incluindo os fatos
certos que estão mais comprovados. Quantos fatos existem que possam
fundamentar-se numa ata notarial outorgada de imediato? Quantos com um processo
levado com todo rigor com dezenas de testemunhos sob juramento e, além disso,
com a total exclusão de qualquer tipo de interesse pessoal dos envolvidos na
causa? [Este comentário parece ser de Messori, pelo que deveria vir entre
aspas. Como, entretanto, estas faltam no original, o texto foi copiado aqui tal
como se encontra no mesmo. A frase seguinte reforça essa impressão].
Messori
assim termina o seu estudo: “Se Calanda nos apresenta como o cume do poder da
intercessão e da misericórdia mariana, não é sem dúvida o único. Em outras
muitas pequenas e grandes “Calandas” de todos os tempos e países, um povo fiel
e confiante experimentou, e experimenta, que não iam dirigidas apenas a João as
palavras de Jesus agonizante na Cruz: “Mulher, eis ai teu filho… eis ai tua Mãe”
(Jo 19, 26-27). Este povo sabe que Maria é a Mãe benigna e amável para todos
que filialmente solicitam a sua intercessão.”
Fonte: Texto disponível em diversos sites na
internet, baseado num estudo de Vittorio Messori, escritor italiano, jornalista
e historiador, publicado em 1998, sobre o Milagre, oficialmente reconhecido
pela Igreja, ocorrido no ano de 1640 em Calanda, um vilarejo de Zaragoza, na
Espanha.
domingo, 9 de agosto de 2015
O relógio de São Pio X
Fonte: Padre Antônio Steffen, S. J. (no
site Encontro de jovens com Cristo).
- Mas que
relógio miserável, Santidade! Um relógio destes não condiz de forma alguma com
a dignidade de um Papa.
Realmente, o
relógio era de níquel, pesadão e inteiramente fora de moda.
Na América
comprar-se-ia um relógio destes por um dólar - continuou sobranceiro o
visitante. Olhe, isto é que é relógio! E tirou do bolso do colete um relógio de
ouro, adornado com diamantes: custou mil dólares, Santidade. Apertou um
botãozinho revestido duma pérola preciosa e um sinalzinho deu a hora com som de
prata refinada.
- De fato, é um
relógio precioso - anuiu o Papa.
- Sabe? Eu
gostaria imensamente de ter uma lembrança de Vossa Santidade - continuou o
milionário. Dê-me o seu relógio de níquel e eu dou-lhe em troca o meu de ouro.
Acho que Vossa Santidade não deixará de aceitar esta troca, não é verdade?
- Não, meu caro
senhor - respondeu o Papa sorrindo. Seria uma péssima troca para mim, pois o
meu relógio é muito mais precioso do que o seu!
Extremamente admirado, o visitante perguntou
como era possível. Mais valioso que o seu de ouro?
- Vou dizer porque, respondeu-lhe o Papa, com
um sorriso fino nos lábios. Meus pais eram pessoas bem pobres. Meu pai era
carteiro rural. Com esta profissão duríssima, que exigia dele longas
caminhadas, mal ganhava o necessário para nos sustentar. Mas nós estávamos
contentes com o pouco que tínhamos e vivíamos felizes.
E ficou um momento em silêncio. Parecia estar
ausente, na sua longínqua casa paterna. Depois, como que refazendo-se de uma
emoção interna, continuou:
- Nós, os
meninos, tínhamos que ajudar a economizar o mais que podíamos. Fazíamos a pé a
longa caminhada de casa para a escola, descalços levando aos ombros os nossos
sapatos, para poupá-los, calçando-os apenas quando chegávamos na escola. Depois
de voltarmos para casa, procurávamos pastagem para a nossa cabra, que era o
nosso único tesouro e que era mimada por todos, porque nos dava o leite que tomávamos
com o pão.
- “Filho, tu sabes como somos pobres, desde
que morreu o pai. Contudo, quero dar-te uma pequena lembrança deste grande dia,
em que Jesus entrou pela primeira vez no teu coração”.
- E dizendo
isto, tirou de um lencinho de seda este pobre relógio de níquel. Este presente
alegrou-me tanto, como se me tivessem dado muitos tesouros do mundo. Lancei-me
ao colo de minha mãe, beijando-a de alegria e gratidão. Que sacrifício terá
custado para ela desfazer-se deste relógio!
- Por isso este
relógio é para mim um objeto sagrado, do qual me separarei só na hora da morte.
E ele parece recompensar-me a estima que sempre lhe votei. Até hoje não foi
preciso levá-lo a um relojoeiro e durante todos estes anos cumpriu a sua tarefa
com perfeição. Compreende agora porque não lhe posso ceder e porque é mais
precioso para mim do que o relógio mais caro que possa existir em todo o mundo?
- Sim, agora
compreendo - concordou o embaixador e, meio envergonhado, embolsou novamente o
seu relógio de ouro e concluiu:
- Como deve ter
sido feliz a mãe de Vossa Santidade, por ter um filho assim!
- Diga antes -
respondeu São Pio X - como é feliz o filho que teve uma mãe tão santa!
sábado, 24 de agosto de 2013
À sombra da guilhotina
Vida do Padre José Coudrin
Paris, 4 de março de 1792. A capela do seminário irlandês está ocupada por jacobinos. O santuário há meses está transformado em clube. Os “heróis” da revolução, sentados diante do altar, de gorros vermelhos, arremessam cartas de jogar sobre a mesa sagrada da comunhão e agitam os copos com os dados. Furiosos e vociferando pragas, passam as cédulas de dinheiro de mão em mão. Origina-se uma contenda. Desembainham os punhais. Um bêbado cambaleia por entre os altercantes. Na mão vacilante tem um cálice sagrado que contém aguardente. A um canto está um indivíduo acocorado, com um arenque numa patena.
- Comportai-vos, cidadãos! Comportai-vos! Balbucia o embriagado.
Não alterqueis por causa de dinheiro. Ainda há que chega a Paris. Cantai! Cantai cidadãos! E com voz animalesca, berra:
- Ah, ça ira, ça ira, ça ira! ...
Todos entram em côro. A matinada que levantam faz estremecer os vitrais da capela com os seus santos.
- A, ça ira, ça ira, ça ira! Les aristocrates à la lanterne! (À forca os aristocratas!).
Enquanto esta cena se passa, na biblioteca da mesma casa está ajoelhado, aos pés do Bispo preso, um jovem com vestes seculares.
No silêncio, o venerando Príncipe eclesiástico impõe-lhe as mãos trêmulas. De leve se movem os seus lábios em oração fervorosa. Em seguida, toma as mãos do recém ungido sacerdote e pergunta com voz trêmula: - Prometes-me a mim e a meus sucessores reverência e obediência?
- Prometo! Responde o ordenado com voz firme.
O Bispo inclina-se então para ele e dá· lhe um ósculo na testa, proferindo as palavras: A paz do Senhor esteja sempre contigo!
Da capela ecoam gritos esganiçados e infernais: - Ah, ça ira, ça ira, ç"a, ira! Les aristocrates à la lanterne! Les prêtres à la lanterne!
- À forca os sacerdotes! Ruge uma voz de permeio e todo o bando repete aos gritos e gargalhadas: - Les prêtres à la lanterne!
- A paz do Senhor seja sempre contigo diz mais urna vez o Bispo. O neo-sacerdote responde: Amém!
Em seguida, o Bispo fá-lo levantar-se, dizendo-lhe: - José Coudrin, foste ordenado à borda do inferno!
- E, contudo, temos aqui o Céu, volve o sacerdote; e eram sinceras as suas palavras.
- A forca os padres! Uiva a corja de embriagados.
Meio ano mais tarde, as ruas de Paris tingem-se de rubro com o sangue dos mártires. Em França, o inferno está solto. A guilhotina escolhe as suas vítimas de quase todas as aldeias. Como animais, farejam os sacerdotes e arrastam-nos ao cadafalso.
Atrás de um destes, os esbirros e patriotas dão caça especial; invisível, nunca se deixa apanhar e sempre de novo surge por toda parte, nas cidades e aldeias das Dioceses de Tours e Poitiers.
Lá vai andrajoso mendigo pela estrada da aldeia. Em cada porta, estende a mão, pedindo esmolas. Por vezes lhe é concedida a entrada, e, momentos depois, ele profere as palavras da absolvição junto a um moribundo, administrando-lhe os Santos Óleos.
Na praça do mercado ergue-se a guilhotina, que projeta longas e negras sombras sobre a terra. Junto da guilhotina se acha um soldado, que lê um manifesto pregado ao poste dela: "Mil francos de gratificação para aquele que denunciar ao tribunal revolucionário o sacerdote Pe. José Coudrin. Patriotas, cumpri o vosso dever. À forca o sedutor do povo!" Aproxima-se um segundo soldado.
- Boa soma essa, mil Francos! Murmurou o primeiro. Isso eu gostaria de ganhar.
- Tens razão, camarada, concordou o segundo.
- O carrasco saberá onde está escondido o padre.
- Precisamente não o sabe, disse, brusco, o primeiro.
- Como? Ah! Sim! Tens razão, camarada!
E cada qual seguiu o seu caminho. O segundo entrou numa taverna, o primeiro numa casa qualquer, perto do mercado. Breve sua mão benfazeja derramava água batismal sobre a fronte de uma criança. Mais uma vez escapou à guilhotina. Mas algum rasto os esbirros sempre tinham, e, aonde quer que se dirigisse o sacerdote, ameaçava-o a guilhotina.
Um vendilhão vai de casa em casa com uma cesta cheia de ratoeiras.
Nas casas onde entra, depõe as bugigangas, tira do bolso sobre o peito uma patena brilhante e diz: "Ecce Agnus Dei! Eis o Cordeiro de Deus". Reverentes, os homens ajoelham-se e recebem o Pão dos fortes.
José Coudrin, o sacerdote, continua caminhando à sombra da guilhotina. Certa vez, descobrem lhe o rasto. Cercam a casa em que se acha. O sacerdote refugia-se, subindo uma escada, num quarto escondido, situado mais alto. Os revolucionários penetram na casa. Um deles descobre a escada. Já punha o pé no primeiro degrau, quando seu camarada o chamou:
- Cidadão, és um macaco. Julgas que ele teria deixado a escada se tivesse subido por aí?
Momentos depois, os perseguidores, que passam revista em toda a casa, até nos últimos recantos, retiram-se.
Em Paris todos os demônios andam soltos. A cabeça do Rei rola no pó. A Rainha sobe ao cadafalso. Por toda parte se degolam sacerdotes. As igrejas são profanadas. O sacerdote José Coudrin, entretanto, continua andando a sombra da guilhotina. Muitas vezes, precisa descansar durante o dia em cavernas, paióis e touceiras. Não raro, só de noite pode realizar as suas visitas. Os patriotas de Poitiers já o condenam à morte em sessão judicial. Falta, porém, o acusado. De novo pensam tê-lo seguro. Os esbirros já tiram a sorte com colmos de capim a ver quem dentre eles o deveria conduzir à guilhotina. Mais uma vez, porém, Coudrin lhes escapa.
Até nos cárceres penetra, e, confundido com os presos, celebra a Santa Missa, ministrando-lhes o Santo Viático. Ainda desta vez consegue subtrair-se aos seus inimigos. Mas anda sempre à sombra da guilhotina. Os “heróis” da revolução apunhalam-se uns aos outros. Um monstro devora outro. Chega o tempo do Diretório.
Vêm os dias do Bonaparte. Passa o tempo dos horrores. A Igreja ressurge das catacumbas [pensam os ingênuos]. A guilhotina não chegou a pegar José Coudrin.
Seguem-se, contudo, novas e graves perseguições. Napoleão, o corso, engana a Igreja. O Papa é feito prisioneiro em Fontainebleau.
Mas, num recanto de França, o sacerdote José Coudrin levanta altaneiro nova bandeira, que leva como sagrado símbolo os Corações de Cristo e da Mãe de Deus, Corações esses que receberam indizíveis opróbrios nos dias dos jacobinos, Corações a que os mártires se consagravam no patíbulo da morte. E o derradeiro grito das vítimas: Viva o Sagrado Coração de Jesus! Tornou-se um brado de combate.
José Coudrin funda a Ordem dos Sagrados Corações. A Condessa Henriette Aymer de Ia Chevalerie funda, sob o mesmo nome, uma congregação para mulheres. Também ela passava pelo inferno da revolução, chegando a conhecer de perto os horrores da prisão, em que a todo o momento esperava o carro fatal, até que, por fim, a morte de Robespierre lhe abriu a porta da liberdade.
Homens agrupavam-se, decididos a tentar o extremo, possuídos daquele mesmo ardor indômito que enchia o sacerdote que vagava pela França à sombra da guilhotina. Brancas eram as suas vestes. Um manto como o dos Cavaleiros do Sepulcro descia-Ihes dos ombros. Sobre o peito traziam a divisa - os Sagrados Corações, cercados da Coroa de Espinhos e de chamas. Nos dias do terror, todo aquele que trouxesse tal imagem era levado ao cadafalso. Em culto blasfemo, os jacobinos veneravam o coração de Marat para escarnecer do Coração de Jesus. Agora era chegado o tempo da reparação. Reparações queriam prestar os homens e mulheres da nova congregação. Reparação pelas igrejas profanadas, pelos altares derrubados, pelos cálices calcados aos pés e pelas Hóstias profanadas. Aonde chegavam os sacerdotes e irmãos de hábito branco, acendiam-se novamente as velas do Tabernáculo; ali Cristo, em ostensório precioso, sobe novamente ao trono mais alto. Lá não se apaga a chama eucarística da Hora Santa.
No centro de Paris, na Rua Picpus, pulsa o coração da nova grei. Lá está a casa-mãe. É o lugar onde se acham sepultadas as 1307 vítimas de junho de 1794, executadas na Barriere du Trône. Sobre as catacumbas dos mártires queima novamente a chama da caridade e do sacrifício. A toda parte envia José Coudrin a sua milícia branca. Onde quer que a indigência e a miséria clamem por auxílio, pode-se encontrá-la, e, de fato, após os anos do terror, não é preciso procurá-Ia, pois em todas as ruas e caminhos de França se encontra a miséria. Mas por toda parte também se curvam, cheios de compaixão, os samaritanos, enquanto a misericórdia traça o seu caminho ao encalço da miséria. A caridade palmilha as ruas pelas quais se esgueiravam o terror e o desespero.
Crianças andrajosas e abandonadas, que já não sabem benzer-se, encontram mestres carinhosos. Os asilos e as escolas que a chama da revolução reduziu a cinzas são reconstruídos. De povoado em povoado, vão os padres. Em muitas igrejas pregam, prescrevem exercícios espirituais e missões. Vida nova e forte surge dos abismos. Um homem, porém, nem agora encontra descanso. Também nesses anos é insultado, escarnecido, perseguido, expulso de cidade em cidade o grande sacerdote que não temeu os revolucionários, que também não se curva ante o conquistador - José Coudrin, o caminhante à sombra da guilhotina.
O grande [sic!!!] imperador [sic!!!, refere-se a napoleão] passa pelo mundo. Por toda parte marcham os seus exércitos e tremulam as suas bandeiras. Outro personagem, porém, envia os seus soldados muito mais longe que Napoleão os seus exércitos. Também ele é conquistador. Para Coudrin as fronteiras da França são estreitas demais. A maldade no Velho Mundo é demasiada. Dirige o seu olhar para novas terras. Envia os seus discípulos através de todos os mares.
No arquipélago de Havaí, na ilha abandonada da Páscoa, em todas as ilhas do Mar do Sul, implantam o sinal de campanha do Grande Rei. Na América do Sul, no Chile e no Peru pregam esses arautos de Deus o do Evangelho.
Também os soldados da paz vertem o seu sangue. Sangue de mártires derrama-se em todo o mundo. O Padre Aleixo Bachelot é escorraçado das ilhas de Sandwiche. O Padre Claro Fouqué é apunhalado nas ilhas Tuamoto.
No arquipélago do Marechal, dão suas vidas por Cristo um Bispo, sete padres e dez irmãos. Um vagalhão arrebata o Padre Paulo Terlyn do altar onde estava dizendo Missa sobre uma ilha baixa. O vasto oceano tornou-se a sua sepultura, mas todo o rebanho pelo qual o sacerdote reza à vista da morte fica ileso.
Meus filhos serão sempre filhos da Cruz, disse uma vez José Coudrin.
Em toda parte, pelo mundo afora, esta profecia se está realizando. Sobre os túmulos dos mártires levanta-se o reino do Rei eterno. Houve conquistadores que sobre o sangue dos trucidados, sobre montes de caveiras erigiram o seu trono. A tempestade da história varreu-os. O Reino de Deus, que nasceu do Sangue de Cristo e dos seus mártires, é invencível.
Após longo exílio, volta José Coudrin em 1833 para a casa-mãe na Rua Picpus. Aqui o perseguido sem tréguas, o caluniado caminhante à sombra da guilhotina, encontra, após três anos, morte tranquila. O semblante do moribundo encrespa-se num sorriso. Como dissera o Bispo no dia da sua ordenação no seminário irlandês?
- A paz do Senhor seja sempre contigo!
Da capela gritavam então os jacobinos - À forca os sacerdotes! Agora, enfim, tinha a paz, a última e grande paz, para morrer. A primeira luz primaveril espalhava-se sobre os tetos de Paris, mandando um clarão para dentro da cela do convento. Eis que se desenha sobre a cama do doente uma grande cruz. É a sombra da cruz da janela. O doente vê-a. A sua mão mirrada estende-se para agarrar a sombra.
- À Cruz, fala com voz fraca: "Eu morro à sombra da Cruz!"
Ou serão mastro e verga que ali se desenham? Os pensamentos do moribundo transpõem o oceano, procurando os irmãos nas missões.
- Trazei-me um mapa, diz o superior geral. Algo hesitantes, os irmãos desdobram diante do moribundo um grande mapa-múndi. Os dedos brancos deslizam sobre os países e mares. Em alguns lugares se detém:
- Aqui estão os meus filhos e ali também! Senhor, tomai-os sob a vossa proteção!
E os dedos indicam novos países e mares. Erguendo-se um pouco no leito, o moribundo diz:
- A messe é grande, mas os ceifeiros são poucos! Pedi ao Senhor que mande operários para a sua messe.
A sombra da Cruz cai agora sobre o mapa. José Coudrin, pensativo, olha para ela:
- A Cruz se estende sobre todo o mundo, diz. Mas olhai o ponto em que os dois braços se cortam, onde estão as ilhas de Sandwich. A Cruz cai sobre o Mar do Sul.
Será que os seus cuidados mais uma vez querem aproximar-se do leito mortuário? Quererão roubar-lhe a paz da última hora os cuidados pela congregação? Será a sua obra duradoura? Onde estão os recrutas que cerrem fileiras sob a sua bandeira? Onde crescem os homens de que ele, o general moribundo, necessita? Homens com força indestrutível e valor a toda prova? Novamente deslizam os dedos do moribundo pelo mapa. Agora encontraram.
- Irmãos, chama o doente com voz prestes a extinguir-se. Vede cá, irmãos! Aí deveis construir um convento, em Flandres. Lá moram os homens por quem outrora São Francisco Xavier tanto clamava. Lá estão, os novos soldados.
Cansado, reclina-se para trás sobre os travesseiros. Em seguida, mais uma vez se ergue na cama. Sua voz soa não como o balbuciar de um moribundo, mas como a de um general em chefe que dá sua última ordem.
- Erigi um mosteiro em Flandres! É a minha última vontade. O rosto do moribundo ilumina-se.
- A paz de Deus seja convosco! Diz com voz muito sumida e com um sorriso.
A paz de Deus! Amém!
Os irmãos de ordem fecham-lhe os olhos para o sono eterno. A sombra da janela avançou mais, desenhando um retângulo bem definido sobre a coberta.
- Como uma guilhotina, dizem entre si os irmãos.
Três anos após a sua morte, em 1840, a congregação dos Sagrados Corações fundou um convento em Lovaina. A três de janeiro de 1859, dia do seu aniversário, José de Veuster [futuro São Damião] tocou a sineta na portaria desse claustro.
Fonte: Wilhelm Huenermann, "Vida de São Damião". Tradução de Aloysio Sehnem, SJ. Trecho sobre a vida do Padre José Coudrin, Fundador da Ordem à qual pertence São Damião de Veuster. Com pequenas adaptações.
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