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sábado, 17 de outubro de 2015

O Milagre de Calanda

               




Jean Martin Charcot, famoso líder do positivismo “religioso” do século XIX, certa vez comentou: “Ao consultar o catálogo de curas chamadas milagrosas, nunca se tem podido comprovar que a fé tenha feito reaparecer um membro amputado”.
            Pois bem, foi isso exatamente o que aconteceu em Calanda: uma perna amputada foi reimplantada miraculosamente depois de mais de dois anos de enterrada. Este acontecimento extraordinário, sobrenatural, foi estudado exaustivamente, com todo o rigor científico, por Messori no seu livro “O grande milagre”.
            Entre as dez e onze da noite do dia 29 de março de 1640, enquanto Miguel Juan Pellicer, camponês de 23 anos, dormia em sua casa foi-lhe “reimplantada” – repentina e definitivamente – a sua perna direita. A perna, feita em pedaços pela roda de um carro e posteriormente gangrenada, foi-lhe amputada no fim de outubro de 1637 (2 anos e 5 meses antes da impressionante “restituição”), no hospital público de Zaragoza.
            Cirurgiões e enfermeiros realizaram sucessivamente a cauterização do toco da perna com um ferro em brasa. O processo e a investigação foram abertos 68 dias depois e se prolongaram por muitos meses, sendo presidido pelo Arcebispo de Zaragoza, assistido por nove juízes, com dezenas de testemunhos e um rigoroso respeito às normas prescritas pelo Direito Canônico.
            A sentença do processo declarou que a perna reimplantada de maneira tão repentina era a mesma que fora cortada e em seguida enterrada. Este fato foi certificado apenas 3 dias depois de que ocorrera e no mesmo lugar do acontecimento, por um notário (de outra cidade e, portanto, sem relação com o caso), por meio do habitual instrumento legal, garantido igualmente pelo juramento de muitas testemunhas oculares.
            A partir do testemunho do protagonista e de outros testemunhos, se chegou à conclusão de que o milagre foi devido à intercessão de Nossa Senhora do Pilar, a quem o jovem sempre fora particularmente devoto, à qual se havia encomendado antes e depois da amputação de sua perna, e em cujo santuário de Zaragoza tinha pedido e obtido autorização para pedir esmola.
            Quando pode enfim sair do hospital com uma perna de madeira e duas muletas, untava diariamente o seu toco de perna com o azeite das lâmpadas acesas na Santa Capela do Pilar. Isto é precisamente o que sonhou que estava fazendo, em Calanda, na noite em que adormeceu com uma única perna e foi despertado por seus pais poucos minutos depois, possuindo outra vez as duas pernas.
            Sobre a verdade do fato nunca se levantou voz alguma de dúvida, nem na ocasião, nem depois, nem no povoado, nem em nenhum outro lugar. Após a conclusão positiva do processo, o próprio Rei da Espanha, Felipe IV, ordenou que chamassem ao seu palácio de Madrid o jovem do milagre, ajoelhando-se em sua presença para beijar-lhe a perna milagrosamente “restituída”.
            A forma como aconteceu o acidente, em julho de 1637, está assentado no livro de registros do Hospital Real de Valência, no dia 3 de agosto do mesmo ano, detalhando como ia vestido, e autenticado com a assinatura do encarregado do registro (Pedro Torrosellas). A constatação do processo avançado de gangrena no Real Hospital de Nuesta Senora de Gracia, em Zaragoza, consignado na consulta médica presidida pelo professor Juan de Estanga, diretor daquele departamento da universidade de Zaragoza; a amputação da perna direita feita pelos cirurgiões Estanga e Millarnelo; a maneira como foi depositada a perna pelo praticante Juan Lorenzo Carcia na capela do hospital e mostrada ao capelão e administrador do mesmo hospital, Pascual do Cacho, etc., etc…
            O médico lhe advertia que, além da possível infecção, o óleo mantinha uma umidade que retardava a completa cicatrização da ferida. Durante toda sua estadia em Zaragoza, Miguel Juan Pellicer passava o dia pedindo esmola na porta da Basílica do Pilar. À noite ia dormir no “Mesón de las Tablas” quando tinha dinheiro para pagar ao proprietário; se não, dormia num banco do hospital. Em marco de 1640, Miguel Juan Pellicer, esgotado pela vida miserável que levava, decidiu voltar a Calanda apesar do seu desejo de ficar junto à Basílica de “La Virgen del Pilar.”
            Todos em Calanda e nas vilas limítrofes por onde Miguel Juan Pellicer, montado num jumento, ia pedindo esmola, conheciam o jovem sem a perna direita.
            Dois anos e quase cinco meses após a amputação da perna direita, precisamente no dia do 16º centenário da visão que teve de Nossa Senhora, ainda viva, o Apóstolo Santiago e do aparecimento do Pilar na quinta feira 29 de marco de 1640, por volta das dez horas da noite, Miguel Juan Pellicer abandonou a conversa e, foi deitar, pois se encontrava especialmente cansado.
            Pouco depois, Dona Maria Blasco, a mãe, foi ver se o filho mutilado estava bem coberto. Deu um grito de estupor, e acudiu o pai. Por baixo das cobertas apareciam dois pés! Após os primeiros instantes de surpresa, levantou as cobertas: aí estava de novo, inteira e sadia, a perna direita, da qual até momentos antes lhe faltava a metade. Miguel Juan só sabia explicar que se havia encomendado, como todas as noites, à Virgem do Pilar, e que sonhara que estava na Basílica untando a ferida uma vez mais com o óleo das lâmpadas.
            Nessa mesma noite acudiram a ver o incrível milagre o soldado Bartolomé Ximeno, e os vizinhos Miguel Barraxina e esposa Úrsula Means.       Os três, minutos antes, estiveram conversando com o coxo e vendo como tirara a perna de madeira e os panos antes de retirar-se a dormir. Naquela mesma noite foi chamado e veio o Pároco, Pe. José Herrera.
            No dia seguinte de manhã a Igreja estava cheia de pessoas que viram e agradeceram a Deus a recuperação da perna direita de quem todos conheciam privado dela até a véspera. Reconhecimentos posteriores mostraram que a perna direita, milagrosamente recuperada, conservou sempre cicatrizes perfeitamente fechadas das feridas que tivera antes de ser amputada, principalmente a da grande ferida provocada pela carreta e que ocasionara a gangrena. Havia também a cicatriz, perfeitamente fechada como todas as outras, onde se havia feito a amputação. Tratava-se da mesma perna que havia sido amputada!
            A mesma perna que havia sido enterrada quase três anos antes! Ficara “a marca”, a conhecida condescendência divina para uma insuperável observação científica.
            Quando a notícia do milagre chegou a Zaragoza, mandou-se verificar no Cemitério do Hospital Real.         Sob a direção do Dr. Juan Lorenzo García comprovou-se que a perna, ou os ossos que deveriam ficar dela, havia desaparecido, sem que ninguém antes tivesse mexido na terra!
            A recuperação de Miguel Juan Pellicer, como em todo milagre, foi instantânea, e também “por etapas”. A perna direita, durante os três primeiros dias após a recuperação instantânea, estava fria. Sua cor era apagada, algo roxa. E os dedos do pé estavam permanentemente curvados, os nervos contraídos, de forma que durante estes três dias Miguel Juan Pellicer, perante todas as autoridades e numeroso povo que o visitava, não podia apoiar a perna firmemente no chão, nem podia prescindir da muleta que usava.
            Passados esses três dias, as mesmas autoridades e o povo puderam constatar que Miguel Juan Pellicer agora caminhava perfeitamente, o pé ficara normal. Mas faltava ainda outra etapa? A largura ou espessura da perna direita, a recuperada, era claramente menor que a grossura da perna esquerda. Miguel Juan Pellicer, a 25 de abril, viajou com seus pais a Zaragoza para agradecer à Virgem do Pilar.
            Durante o trajeto, um cirurgião lancetou o talão nas suas pesquisas, fato que obrigou Miguel Juan Pellicer a mancar um pouco novamente. Mas logo passou. Miguel Juan quis permanecer em Zaragoza por algum tempo. Ia com frequência à Basílica do Pilar, onde confessava e comungava cada sete dias, e comprazia-se em continuar ungindo sua perna direita, mais débil, com o óleo das lâmpadas.
            “Pouco a pouco a perna direita ficou igual à esquerda (…). Quando voltou a Calanda, os vizinhos maravilharam-se de vê-lo caminhar e correr alegremente. Como deram testemunho (…). Notaram também que o jovem podia realizar movimentos de esticamento até levantar o pé à altura da cabeça. Assim completara-se o milagre até a perfeição total”(48).
            A Prefeitura de Zaragoza, a 8 de maio de 1640, reuniu-se em conselho extraordinário e plenário, e nomeou três procuradores para pesquisar o caso, além de solicitar do Sr. Arcebispo que instaurasse um acurado processo canônico, a expensas da Prefeitura. Conservam-se todas as atas de ambos os inquéritos.
            O inquérito da Prefeitura começou só dois meses depois do milagre. O canônico, só após três meses. Bem contemporâneos dos fatos. Inquéritos detalhadíssimos. Muitas comprovações. Depoimentos de multidão de pessoas que conheceram e conviveram com Miguel Juan Pellicer, antes e depois do acidente, antes e depois da amputação.
            Vi um grande tapete que há no Palácio Real de Madri, representa o Rei Felipe IV beijando a perna regenerada de Miguel Juan Pellicer. Lord Hopton, embaixador da Inglaterra na Espanha, certificou independentemente que esteve presente quando El-Rei se ajoelhou, descobriu a perna recuperada e beijou a cicatriz da amputação.
            Foram realizadas recentemente novas pesquisas históricas a respeito, com levantamento abundante e irrefutável de documentos.
            O milagre com “O coxo de Calanda” ocorreu em 1640. Somente em 1959 se realizou com sucesso a primeira operação de recolocar uma perna cortada. Os cirurgiões do Hospital Mont-Eden, de Hayward (Califórnia – USA), conseguiram recolocar uma perna, mas imediatamente ao acidente (não quase três anos depois), sadia (não gangrenada) e que ficara ainda unida ao corpo por consideráveis partes de carne (não uma perna enterrada!). E o maravilhoso êxito da cirurgia humana precisou meses de cuidados médicos antes de o paciente receber alta.
            Miguel Juan e seus pais examinaram a perna amputada descobrindo imediatamente sinais inconfundíveis que permaneciam nela. “O mais notório e principal, a cicatriz originada pela roda do carro que lhe fraturara a tíbia; outra cicatriz, menor, ocasionada pela extirpação, na adolescência, de um abcesso; e, por último, dois profundos sinais de cortes provocados por um arbusto de espinhos, e as marcas da mordida de um cachorro”.
            Quando amanheceu o 30 de março, e se difundiu a notícia por todo o povoado, Pe. Jusepe se aproximou da casa dos Pellicer com muita gente. Entre estas o primeiro magistrado, o juiz que era ao mesmo tempo o responsável da ordem pública, Martín Corellano. Acorreram também o jurado maior, o prefeito Miguel Escobedo, o “jurado segundo”, Martín Galindo, e o notário real Lázaro Macario Gomez. Encontravam-se também os dois cirurgiões locais, que certificaram o fato de maneira profissional. Ambos declarariam ter que render-se à evidência, que havia deixado por terra sua instintiva incredulidade. O notário lavrou uma ata notarial constatando o fato ocorrido.
            Tratava-se de uma expedição inesperada à que devemos um documento extraordinário, para não dizer único, como único é o caso que aparece neste documento legal. Estamos ante uma intervenção divina testemunhada por uma ata notarial, diante de um milagre com a garantia de um documento ajustado à normativa vigente e corroborado por dez testemunhas oculares, escolhidos entre os de maior confiança e melhor informados dos muitíssimos disponíveis. E como se não bastasse, a ata notarial  milagre foi escrita e autenticada, passadas algo mais de 70 horas depois do sucedido e no próprio lugar onde ocorrera.
            Observou o historiador Leandro Aína Naval: “trata-se de um Ato Público (ata notarial, diríamos hoje) documento de máxima autoridade em todo tempo, que se aproxima ao ideal exigido por alguns racionalistas para a comprovação dos milagres na sua vertente histórica”.
            Mais tarde em outubro de 1641, Felipe IV, rei de Espanha, no meio da corte espanhola, rodeado de todo o corpo diplomático interrogou publicamente a Miguel e aos relatores do processo. Verificou ele próprio a reimplantação miraculosa da perna, e, diante do assombro de todos, ajoelhou-se e beijou a perna, fazendo com isso um verdadeiro ato de Fé.
            A homenagem de Felipe IV naquela manhã de outubro foi como o selo definitivo que a autoridade civil pode dar a um acontecimento. O rei da Inglaterra, Carlos I, (cabeça da seita anglicana, inimiga da Espanha), informado pelo seu embaixador, ficou convencido do milagre, até o ponto de defendê-lo perante os “teólogos” da sua corte, que ficaram escandalizados.
            Não consegui descobrir nenhum argumento para dar um mínimo de credibilidade à suspeita ou à dúvida do milagre. Quem rejeitasse a verdade do acontecido em Calanda teria que pôr também em dúvida toda a História, incluindo os fatos certos que estão mais comprovados. Quantos fatos existem que possam fundamentar-se numa ata notarial outorgada de imediato? Quantos com um processo levado com todo rigor com dezenas de testemunhos sob juramento e, além disso, com a total exclusão de qualquer tipo de interesse pessoal dos envolvidos na causa? [Este comentário parece ser de Messori, pelo que deveria vir entre aspas. Como, entretanto, estas faltam no original, o texto foi copiado aqui tal como se encontra no mesmo. A frase seguinte reforça essa impressão].
            Messori assim termina o seu estudo: “Se Calanda nos apresenta como o cume do poder da intercessão e da misericórdia mariana, não é sem dúvida o único. Em outras muitas pequenas e grandes “Calandas” de todos os tempos e países, um povo fiel e confiante experimentou, e experimenta, que não iam dirigidas apenas a João as palavras de Jesus agonizante na Cruz: “Mulher, eis ai teu filho… eis ai tua Mãe” (Jo 19, 26-27). Este povo sabe que Maria é a Mãe benigna e amável para todos que filialmente solicitam a sua intercessão.”

Fonte: Texto disponível em diversos sites na internet, baseado num estudo de Vittorio Messori, escritor italiano, jornalista e historiador, publicado em 1998, sobre o Milagre, oficialmente reconhecido pela Igreja, ocorrido no ano de 1640 em Calanda, um vilarejo de Zaragoza, na Espanha. 

sexta-feira, 15 de junho de 2012

A mais famosa ovelha perdida do “ottocento” italiano


Racionalista e frívola, Alessandra di Rudini converteu-se em Lourdes


        “O abismo abre-se diante de mim, o humano despenca-se, já se despencou. O horror deste vazio atroz não se pode explicar com palavras humanas. Por quê vivemos? É afortunado quem pode responder com segurança a esta eterna pergunta”. Estas palavras, escritas por Alessandra di Rudini expressam a luta desta  mulher entre a atração dos prazeres mundanos e o chamado de Deus, de Quem ela procurava fugir com todas as suas forças.
               Alessandra di Rudini é uma das figuras mais fascinantes da alta sociedade italiana do século XIX, famosa “ovelha perdida” daquela época racionalista que deixava a Deus de lado, mas que no fundo, não queria abandoná-lO definitivamente, e somente viver como se não existisse. Até o dia em que de fato fizesse falta, para então voltar-se a  Ele em situações desesperadas.      
             Alessandra nasce a 5 de Outubro de 1876 em Roma, no seio de uma família da alta aristocracia siciliana. É filha de Antonio Starabba, marquês de Rudini, que foi Administrador de Palermo aos 25 anos, depois do golpe de Garibaldi sobre a Sicília dos Bourbons. Mais tarde, foi Prefeito de Palermo e de Nápoles, chegando a ser também Primeiro Ministro do novo  Estado italiano de 1891 a 1892 e de 1896 a 1898. Fundou o Partido da Jovem Direita com o qual triunfou para ocupar o cargo em seu primeiro mandato. Entre seus logros políticos está o de ter assinado, em 1896, o Tratado de Adís Abeba, que pôs fim às pretensões italianas sobre a Etiópia.
           O marquês tinha idéias racionalistas e politicamente revolucionárias, e compartilhava a hostilidade do rei Víctor Manuel II em relação à Igreja Católica. Sua esposa, Maria de Barral, a mãe de Alessandra, não participava das idéias revolucionárias do  marido, mas por causa de sua delicada saúde, pouco pôde influenciar na educação da filha.
             Alessandra tinha um irmão maior, Carlo, que seria esposo da filha do político britânico Henry Labouchere, e que também seria conhecido na alta sociedade daquele tempo. A família do marquês de Rudini levava em si as contradições próprias da época em que seus personagens viveram: o anticlericalismo próprio do “Risorgimento” italiano, fortemente influenciado por esse espírito revolucionário e a idiossincrasia(maneira própria de ver, sentir, reagir) daquele país que faz com que até os maiores inimigos da Igreja tenham amigos entre os eclesiásticos, inclusive na alta hierarquia, e mais cedo ou mais tarde lembram-se de Deus, por se acaso...
             Desde criança mostra um carácter inquieto, impetuoso e perspicaz. Em vez de brincar com casinhas e bonecas , prefere cavalgar no seu “pônei”(cavalinho) ou então correr pelos campos com os cães de caça à procura de presas.
           Por influência da mãe, que queria assegurar um bom colégio religioso para a filha, aos 10 anos ingressa no internato do Sagrado Coração de Trinità dei Monti, no alto da “escalinata” da Piazza di Spagna, em Roma. Sem dúvida, uma das escolas de melhor reputação naqueles tempos. Sua mãe tinha a esperança de que as religiosas ajudassem-na a corrigir seu caráter independente, mas não sòmente não o conseguiram, como, por causa de seu mal comportamento, tiveram que expulsá-la no fim do curso escolar. Seu pai usou tal episódio como pretexto para inscrevê-la numa escola de espírito liberal, onde Alessandra encontrar-se-á mais a gosto, muito diferente à das religiosas. De fato, naquele colégio a diretora deixava-lhe em liberdade e assim a jovem desfrutou de sua inclinação favorita: a leitura. Por influência das idéias liberais do colégio, sem a proximidade de sua mãe, aos 13 anos já estava cheia de dúvidas sobre a fé, que a acompanharam durante muitos anos.         
      Aos 16 anos, quando terminou os estudos, volta à residência familiar. Alessandra dá-se conta da ausência de sua mãe, cuja enfermidade levou a se recolher num asilo. E a jovem assume as tarefas da organização da casa, e passa a acompanhar o pai, chefe do Conselho de Estado, em viagens e recepções de gala. Foram seus primeiros contatos com a alta sociedade romana, na qual logo terá êxito graças a seu bom caráter e a sua firme resolução.
     E no entanto, encontra-se dividida interiormente, pois à sua felicidade externa acompanhava-a o vazio de alma: “Era como se tudo se afundasse em minha volta, e procurava com paixão desesperada um ponto seguro de apoio fora de mim mesma. Lembro-me de algumas noites de ansiedade e de dor indizível. Não existe pior dor que a da alma que busca e não consegue alcançar a verdade”. A leitura da “Vida de Jesus”, de Ernest Renan – que recebeu o epíteto de “blasfêmo europeu” por parte de Pio IX – , obra que negava o sobrenatural, vendo em Jesus sòmente um homem extraordinário, foi fatal para a vacilante fé de Alessandra.
        Tendo só 18 anos, já estava tomada pela vida social, ombreando-se com a nata de sua época. Realizou um cruzeiro no yate pessoal do imperador da Alemanha, Guillermo II, e estabeleceu estreitas relações com a rainha Margarita da Italia.
            Aos 19 anos recusa o casamento com o Grão Duque Sérgio, parente do Czar da Russia, porque não é católico, mas ortodoxo. Naquele mesmo ano surpreende a todos casando-se com Marcello Carlotti da Garda, marquês de Riparbella, dez anos mais velho que ela. Os recém-casados instalam-se na extensa e luxuosa propriedade que os Carlotti possuiam à beira do Lago de Garda. Mas pouco durou esta felicidade familiar, que poderia ter trazido equilíbrio pessoal a Alessadra. Em breve, Marcello manifesta sintomas de tuberculose. A partir de 1900, sente-se perdido e esforça-se em enfrentar a morte como adepto das teorias materialistas. A enfermidade do marido serviu a Alessandra para se voltar tímidamente à fé, procurando um prelado de Verona, Monsenhor Serenelli, para que assistisse espiritualmente a seu marido. Quase nada se pôde fazer, já que o marquês Carlotti recusou todo auxílio religioso e morreu a 29 de abril de 1900, sem manifestar sinal de abertura às realidades eternas. Alessandra fica viúva aos 24 anos, com dois filhos.
              A vida de Alessandra fica marcada por duas tendências contraditórias: a de ser boa mãe e cuidar dos filhos, e a de voltar à vida social que tanto a atraía. A amizade com Mons. Serenelli por ocasião da enfermidade do marido, será agora uma constante em sua vida, se bem que o prelado não tenha conseguido frear algumas das excentricidades da viúva.
               Durante o inverno de 1900-1901, Alessandra deixa  seus filhos aos cuidados de um instituro de previdência social e parte para uma perigosa viagem de exploração  por Marrocos, na qual fica impressionada com a religiosidade dos guias muçulmanos. De volta à Itália, para satisfazer o desejo do pai, regressa à vida mundana, se bem que confessa a algumas pessoas seu desconcerto e sua busca espiritual. Alessandra vê-se sacudida pelas instáveis marés da dúvida. Mons. Serenelli dá-se conta disto,  e recomenda-lhe que seja mais humilde em sua busca da Verdade. Após as exortações desse prelado, em fevereiro de 1902, confessa-se e comunga, mas perseverará pouco tempo nessa disposição.
               Em 26 de Maio de 1903, no Teatro Scala de Milão, Alessandra é apresentada ao ímpio poeta e romancista Gabriel d’Annunzio (1863-1938), amigo de seu irmão Carlo. D’annunzio, famoso por seus costumes libertinos, tinha naquela época como amante a Eleonora Duse, a mais famosa atriz de teatro italiano. Logo enamora-se de Alessandra, a quem foi-lhe difícil conquistar, porque a fama de mulherengo do escritor não lhe agradava. A persistência de D’Annunzio vence a resistência da jovem viúva, que apesar dos protestos de familiares e amigos acaba convivendo escandalosamente com o escritor no seu belo palácio perto de Florença. Assim, deixou seus filhos práticamente abandonados.
                Não muito tempo depois, a sua vida de luxo e de diversões desenfreadas é sacudida por uma grave doença que a surpreende na primavera de 1905, levando-a às portas da morte. É transladada para uma clínica, onde sofre duas intervenções cirúrgicas.
                Ao sair da clínica seu aspecto físico está ressentido e ela nota que D’Annunzio já não é tão carinhoso como antes. Durante a convalescença, o escritor havia feito uma nova conquista, a Condessa de Mancini. Em fins de 1906, dá-lhe a entender que estava demais em sua mansão e Alessandra tem que voltar a sua residência do Lago de Garda, dolorida e humilhada.

O sofrimento ilumina sua alma, cegada pelas paixões

               Mas tal humilhação foi a ocasião para se abrir à graça de Deus. Profundamente  desgostada e decepcionada, Alessandra torna-se cada vez mais consciente de que as vaidades e as  felicidades mundanas são falsas e passageiras. No seu coração surge impetuosamente o problema da fé. Volta-se então para o estudo da Religião e entra em contacto com Mons. Serenelli, sacerdote culto e piedoso, em fins de 1907. O bom prelado não recusa em receber a filha pródiga, cuja confissão escuta com solicitude. Na primavera de 1908, Alessandra faz um retiro espiritual de Santo Inácio. Ela experimenta nessas circunstancias como Deus trata com misericórdia os corações aflitos e abandonados.
               Mas sua conversão definitiva estava ainda por chegar. Tendo voltado às suas obrigações maternas, pede a um sacerdote francês, o Padre Gorel, que se fizesse preceptor de seus filhos, e ao referido eclesiástico expõe seus tormentos interiores e suas dúvidas de fé. O bom sacerdote recomenda-lhe uma peregrinação a Lourdes, onde ficaria curada interiormente. Ele não sabia até que ponto suas palavras iam se tornar realidade.
             Em sua viagem, iniciada com muito ceticismo em agosto de 1910, providencialmente ela estava presente no momento de um prodígio: uma senhora francesa é milagrosamente curada  de sua enfermidade.  O Dr. Boissaire, médico encarregado de verificar tais curações, comprova seu caráter inexplicável para a ciência.
             Depois de longos anos de atormentada busca, reencontra a fé e tem a certeza de que Deus a chama para a doação total da sua vida. Para agradecer à Virgem Imaculada a preciosa graça recebida, manda esculpir uma estátua do cego curado por Jesus, que ainda hoje se venera naquele santuário. Pretende assim expressar que também ela, cega pela paixão, foi ali curada da cegueira espiritual.
             Alessandra volta a Itália totalmente transformada, depois de ter feito um profundo ato de fé em Lourdes: “Pensei muito sobre o milagre que presenciei em Lourdes, e alegra-me reconhecer que não atuei levada por um movimento de emoção religiosa, mas por um ato voluntário e pensado, preparado ao longo de muitos anos de estudo e meditação”.

Radical mudança de vida

               A partir de então começa uma ascensão espiritual que se traduzia na volta a uma antiga idéia da juventude, antes de ser sacudida pelas paixões: a da vida religiosa, rumo à qual se dirige sob a guia de seu novo confessor.
             Percebe entretanto, que uma decisão desta natureza vai contra tudo quanto o mundo pensa. Está porém decidida a não voltar atrás, embora sabendo que terá de deixar os dois filhos.
            Depois desta experiência, a marquesa Alessandra muda radicalmente o seu comportamento. Entrega-se a uma vida de penitência e oração com tal intensidade que espanta os seus familiares e conhecidos. Ela sente no seu  interior que o Senhor Deus a chama para a vida austera das Carmelitas Descalças..
              Aconselhada pelo Padre Gorel em julho de 1911, a marquesa empreende o caminho do Mosteiro das Carmelitas em Paray-le-Monial, localidade célebre pelas aparições do Sagrado Coração de Jesus. Uma luz interior lhe faz ver que está ali o lugar que a Providência preparou para ela. Convence-se que o Coração de Jesus a encaminha para uma vida de amor e reparação, tal como Ele a pediu para Santa Margarida Maria Alacocque.
             Ademais, escolheu a França porque na Itália era muito conhecida.
              Antes de partir para o convento, Alessandra procura com solicitude que tudo para seus filhos fique em ordem e bem encaminhado.
             Por medida de prudência não revela a sua decisão a ninguém. Ao filho Antonio que a interroga acerca desta nova viagem, responde apenas: --Filho, conforma-te em saber de momento, que a tua mãe não fará nada contra a honra e as tradições da nossa família.
             Pouco dias depois os filhos Antonio e André escolhem a carreira militar.

Pedido público de perdão

               Alessandra sente também a necessidade de pedir perdão pelo escândalo dado por ela na povoação do falecido marido, Marcelo Carlotti.
             Numa Missa de domingo na Igreja Paroquial repleta de fiéis, depois da proclamação do Evangelho, inspirada pela loucura dos santos, levanta-se do seu lugar e como pobre pecadora pede perdão a todos pelos maus exemplos da sua vida passada.
             Esta atitude heróica permanecerá viva na lembrança do povo de Garda, durante muitas décadas.
                Entrada no Carmelo
              A 28 de Outubro de 1911, depois das últimas recomendações aos filhos, a Marquesa Alessandra di Rudini, elegantemente vestida, cruza o portão do Carmelo de Paray-le-Monial, que se fecha atrás dela sôbre um mundo que deixa sem saudades.
             Ali recebe o nome de Irmã Maria de Jsus e abraça com heroica fidelidade a vida austera das carmelitas totalmente voltada para a oração, reparação e imolição de si.

Encontra finalmente a paz de alma que tanto ansiava.

     Para Alessandra di Rudini a vida religiosa foi-lhe muito penosa, especialmente dura no Carmelo que ela mesma havia escolhido, por querer fazer penitência dos pecados da vida passada.
          Durante o noviciado recebe a notícia de que o filho André se encontra gravemente doente com tuberculose. Com o consentimento da superiora vai visitar o filho. E para dissimular aos olhos dos familiares a sua nova vida religiosa, veste outra vez a roupa elegante, põe as jóias de quando era marquesa e vai a uma cabeleireira dar um arranjo ao cabelo de modo a não chamar demasiado a atenção.  Em Roma confia André à solicitude da fiel servidora Ana e interna-o num luxuoso sanatório da Suíça.
         Começa então a revelar gradualmente aos familiares a nova orientação da sua vida, o que provoca neles repulsa e incompreensão. Oito dias depois está de regresso ao convento.
      Um pouco mais tarde também o filho Antonio, tuberculoso, irá juntar-se a André no Sanatório.
       Em 1913 a Irmã Maria de Jesus faz a profissão religiosa com um ligeiro atraso à data prevista. Isso porque num gesto de admirável caridade pede autorização para interromper o retiro espiritual preparatório da profissão, para poder tratar de uma irmã doente com tuberculose.
       Enquanto a trata fere-se com uma seringa infectada, o que lhe acarreta graves danos à saúde.

As provações
             
       Às durezas da observância da regra, às quais pouco a pouco se acostuma, unir-se-á a morte por tuberculose de seus dois filhos, Andrea e Antonio, em 1916, o que a leva a uma profunda crise de conciência por reconhecer que havia sido uma péssima mãe ao ter abandonado seus filhos. 
            Amadurecida pelo sofrimento e pela ação da graça em tão pouco tempo, Maria de Jesus ganha a estima e a confiança de tôdas as irmãs. Primeiro é eleita Mestra das Noviças e depois Superiora, a 1 de Junho de 1917. Soprepõe-se a tudo com sua grande força de vontade e desejo de santificar-se.
            Entretanto, com a infecção contraída, a saúde piora. E estende-se por todo o corpo incluindo os dentes.

Na agonia, inteiro desprendimento

        Apesar disso não duvida em gastar os bens herdados dos pais e do marido em obras da Religião. Conclui a construção do Mosteiro de Paray-le-Monial e funda três outros mosteiros em França: Valenciennes (1924), Montmartre (1928) ao lado da Basílica do Sagrado Coração de Jesus e por último, a rehabilitação da antiga Cartuxa de Le Reposoir, num solitário cume da Alta  Saboya, lugar ideal para a vida eremítica e contemplativa. Aí consegue que o Estado reabra um colégio fechado em 1919.
          A sua alma totalmente imersa no amor eterno só conhece duas formas de descanso: o descanso em Deus na mais intensa actividade e o descanso de se dar inteiramente ao próximo.
       Em Março de 1930 sua saúde piora repentinamente como consequência da infecção que invade todo o organismo, padecendo sobretudo do fígado e dos rins. É submetida a três cirurgias, sem resultado.
             Com admirável serenidade vai ao encontro da morte. A 2 de Janeiro de 1931 abandona-se nos braços do Pai com ilimitada confiança, humildade e intimidade, dizendo: “Pai, em vossas mãos entrego o meu espírito”. Alguns dias antes havia declarado, resumindo uma vida turbulenta e, desde muitos pontos de vista, fascinante: “Diante da proximidade da morte, senti algo que nunca havia experimentado:a atração de Deus, a sede de Deus; e comprendi até que ponto era fácil e bom ir até Ele”.
   
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               Morre assim uma das mulheres que mais se destacou pela sua cultura, riqueza e atractivo pessoal na soiedade italiana dos princípios deste século. Nela o Senhor Deus se dignou fazer resplandecer os infinitos tesouros do seu Amor Misericordioso.
               Madre Maria de Jesus, antes Marquesa de Rudini e Marquesa de Riparbella, recorda-nos de forma viva que quanto maior é o abismo da nossa miséria, tanto mais Deus vem ao nosso encontro se, com humildade e confiança nos abandonarmos a Ele, que tudo pode, tudo vence e nunca desilude a nossa fé.

Obs.: “ottocento”italiano = os anos do século XIX, na Itália
http://www.historiadelaiglesia.org/2011/12/la-mas-famosa-oveja-perdida-del.html