quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Senhor, eu não sou digno


Há muito tempo, em Roma, para além da Porta Nomentana, erguia-se um amontado de míseros casebres, onde viviam centenas de escravos foragidos, comediantes arruinados, mendigos, traficantes e gladiadores estropiados, que pareciam mais ameaçadores com seus andrajos do que os arrogantes vigias do Emporium com suas pesadas lanças rebrilhantes.
Aquele perigoso refúgio, raramente visitados pelos agentes de César, era apelidado a “Pequena Salária”, ou melhor “A Salária”.
Por entre as vielas sórdidas e sombrias da Salária, um dos tipos mais populares era o velho Flaminius, o Sereno. Pela manhã, muito cedo ainda, arrastando-se lentamente, deixava o seu miserável tugúrio e dirigia-se para o pátio da Semita, em busca de sol, sob as árvores ferrugentas.
Era um homem alto, magro, de faces amortecidas e olhar distraído. A sua cabeleira, inteiramente branca, sempre revolta, dava-lhe uma estranha aparência de profeta gaulês.
Usava, habitualmente, uma espécie de túnica palmata, avermelhada, suja, esfarrapada, que mal lhe chegava até os joelhos.
De que vivia? Onde ia buscar recursos aquele ancião que não esmolava na Praça doMercado nem era visto a tirar sortes nas escadarias dos templos?
Repontava aí a sombra de um mistério, que o tempo jamais conseguiria esclarecer.
Garantiam alguns que o velho Flaminius era amparado por um antigo senador, íntimo de Augusto, que ele conhecera muitos anos antes, em Nápoles, quando trabalhava no porto, carregando as galeras de Tibério.
E, na verdade, Flaminius, que agora arrastava a sua triste decrepitude na Salária, tivera, em sua vida, um período de prosperidade e alegria. Casara-se com uma camponesa da Sicília e tivera dois filhos. Um deles — Cláudio, o Belo — fizera-se poeta. Tornara-se popular na corte. As suas poesias eram declamadas pelos nobres e elogiadas pelo imperador. Até os cônsules, altivos, com prestígio entre os senadores, invejavam os triunfos do jovem Cláudio.
Flaminius orgulhava-se daquele filho, que os seus “deuses” haviam cumulado de talento.
Mas Cláudio era ambicioso. Ligou-se a um certo Marcus Lúcius, político sem escrúpulos, que Tibério escolhera, no período mais agitado de seu governo, para pacificar uma província grega. Lúcius partiu e levou o poeta. E, de Atenas, Cláudio jamais regressou.
O desaparecimento do filho amado navalhou o coração de Flaminius. Abandonou o trabalho em Nápoles e passou a viver em Roma, entre aventureiros da pior espécie, sem pão, sem conforto, sem esperança. Sua esposa abandonou-o e partiu para a Espanha, com alguns parentes ricos. O filho mais moço fez-se soldado e alistou-se nas legiões de César.
E no entanto, Flaminius, no meio de tanta desgraça, sentia-se feliz.
As palavras, que ele ouvira de um oráculo do Templo de Vesta, enchiam o seu coração de esperanças.
Passara-se o caso num dos últimos dias de setembro, quando os fiéis traziam suas oferendas aos seus “deuses”. Cruzava Flaminius o átrio do Templo, quando ouviu que o chamavam. Era um dos oráculos. Trajava uma túnica branca, muito alva, vistosamente recamada de franjas. Na manga direita, que se abria em leque, aparecia, desenhada, uma figura estranha: dragão, esfinge, serpente ou coisa parecida.
— Não se lembras de mim, Flaminius?
O ancião aproximou-se, desconfiado. Surpreendia-a, além do mais, o tom amistoso daquele profeta de olhos mortiços e rosto pálido.
— Quero recordar-te — prosseguiu o oráculo — olhando fito no velho. Há vários anos passados (reinava Augusto), em Nápoles, certa noite, socorreste um viajante que fôra assaltado no porto. Graças a teu auxílio, ele conseguiu livrar-se do sicário. Esse viajante era precisamente eu. Devo-te, portanto, a vida. Quero agora prestar-te igualmente um benefício.
Vou ler o teu futuro.
Flaminius parou diante do oráculo. Cruzou os braços sobre o peito e aguardou impassível a terrível e arrebatadora sentença. Curiosos que perambulavam entre as colunas, aproximaram-se em silêncio.
— O teu nome será esquecido. A tua memória será apagada por completo e desaparecerá como as cinzas levadas pelo vento. Mas as palavras admiráveis de teu filho jamais serão olvidadas. Milhões e milhões de homens, no desenrolar dos séculos, repetirão por todos os recantos do mundo as palavras de teu filho! Que júbilo, que glória imensa para o teu coração de pai!
Ao retornar ao seu casebre de Salária, o velho Flaminius assim meditava:
— Vivi sempre obscuro; morrei esquecido e obscuro. Não importa! Mas a glória perpetuará, sobre a terra, o nome de Cláudio, meu filho. Os seus versos “adoráveis”, que César não se cansava de repetir, serão lembrados pelos homens, no desenrolar dos séculos! E aquele êxito do filho poeta trazia infinita alegria e tranqüilidade ao coração do velho romano.
— Que importa a pobreza em que vivo! Consola-me a certeza de que meu filho Cláudio terá por prêmio a imortalidade!
E o velho Flaminius, a quem as palavras do oráculo deram alento para resistir a todas as amarguras e vicissitudes de sua negra existência, teve um fim trágico. Ao regressar, um dia, de um visita ao templo de Júpiter, avistou, num recanto da praça Salutis, um soldado espancando cruelmente uma pobre menina. O agressor, irritado com a intervenção inesperada daquele desconhecido, não hesitou em atravessá-lo com uma punhalada.
Flaminius pereceu heroicamente. E no dia seguinte, um mendigo sem rumo, no seu andar bamboleante, avistou casualmente a miserável mansarda em completo abandono na Salária. Apoderou-se dela, atirou para ali seus troços, sem indagar do destino que levava o primitivo dono.
E assim como previra o oráculo, como a cinza que o vento espalha, apagou-se entre os homens a lembrança daquele que fora em vida Flaminius, o Sereno.
Após a morte, viu Flaminius surgir diante dele a figura radiosa de um Anjo.
— Flaminius — disse o Enviado de Deus, em tom mavioso de paciência — a tua morte gloriosa mereceu-te uma recompensa no Céu. Fala, meu bom amigo, e o Eterno ouvirá a tua voz.
— Nada fiz, estou certo, para merecer a menor recompensa da misericórdia de Deus.
Confesso, porém, que tenho o coração torturado por uma grande angústia. Gostaria de retornar ao mundo, no fim de alguns séculos, a fim de verificar se os homens (conforme me garantiu o oráculo) conservam, na memória, os versos de meu filho. Que indizível alegria para mim certificar-me de que meu filho, por seu gênio incomparável, se tornou imortal!
Deus, na sua infinita misericórdia, atendeu ao pedido daquele pai. E, decorridos dezenove séculos, Flaminius, conduzido por um Anjo, retornou a Roma.
Por todos os recantos da terra erguiam-se cruzes. A religião que César havia desprezado, a princípio, e perseguido mais tarde, vencera, afinal, e dominava o mundo.Flaminius, o Sereno, guiado pelo Anjo, entrou num grande Templo cristão. Milhares de fiéis achavam-se em oração; um jovem sacerdote, revestido de riquíssima paramenta, debruada com fios de ouro, junto a um belíssimo altar, adorava o verdadeiro Deus, Jesus, Nosso Senhor! Flaminius não cabia em si de deslumbramento! Tudo ali era para ele motivo de indescritível assombro! E balbuciou muito humilde (e suas palavras só eram ouvidas pelo Anjo):
— E os versos de meu filho? Poderei ouvi-los aqui, neste Templo, cheio de cristãos, que erguem para o Céu as suas preces lamuriantes?
— Sim — confirmou o Anjo — dentro de alguns instantes! Rejubila-te! Todos os cristãos, aqui reunidos, repetirão as palavras de teu filho!
Decorridos alguns minutos cessaram os cânticos. Fez-se profundo silêncio. E o sacerdote, batendo no peito três vezes, suplicou cheio de humildade e confiança:

— Domine, non sum dignos ut intres sub tectum meum...
(Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha casa...)

— Eis aí — acudiu o Anjo — Acabaste de ouvir! Foram estas palavras proferidas, há muitos séculos por teu filho e, até hoje, os homens as repetem diante de Deus! Sinto dizer-te, porém, que não são versos de Cláudio, o poeta; são simples palavras proferidas por Marcelo, teu filho mais moço... Flaminius quedou um momento perplexo e replicou, esboçando um sorriso pálido:
— Aquele que se fez soldado?
— Sim — confirmou o Anjo, num tom de absoluta confiança — aquele que se alistou nas legiões de César! Marcelo era um homem bom e caridoso: apiedava-se dos sofrimentos alheios; socorria os pobres; consolava os aflitos. Quando servia às ordens de Herodes, tetrarca da Galiléia, um dos seus servos adoeceu com uma grave paralisia. Marcelo, neste tempo, fora promovido; já era centurião. E todos os homens de sua centúria o estimavam.
Inspirado pela delicadeza de sua sensibilidade, cuidou Marcelo de acudir, com desvelo, ao servo enfermo. Todos os remédios, aconselhados por amigos e vizinhos, ele experimentava, sem resultado. Alguém sugeriu:
— Chefe! Por que não apelas para Jesus de Nazaré? Dizem que o Rabi faz milagres!
Marcelo era puro de coração e, muito embora fosse romano, acreditava naquele Rabi, cheio de simplicidade e candura, que sorria para as crianças e curava os enfermos com o simples estender suave de suas divinas mãos.
Não se atreveu, porém a ir procurar Jesus e pediu a alguns israelitas, fossem em busca do Mestre, de cujo amparo o infeliz servo tanto necessitava.
Jesus, Nosso Senhor, com seus discípulos, dirigiam-se para Cafarnaum, quando recebeu o pedido de dois anciãos, amigos de Marcelo. E disse aos que o acompanhavam:
— Irei até lá!
Quando o centurião romano foi informado de que Jesus de Nazaré, em Pessoa, se dirigia para a sua morada, levantou-se imediatamente a passos rápidos, seguido de alguns ajudantes e servos e foi ter, muito respeitoso, ao encontro do Mestre. E disse-lhe, com extrema humildade:


— Senhor! Eu não sou digno de que entreis na minha morada! (Domine, non sum dignus...) Basta que digais uma só palavra e, estou certo, meu servo estará para sempre curado!
E, como Cristo o fitasse surpreendido, ajuntou:
— Porque eu, Senhor, sou militar e sei muito bem o que é obedecer e o que é mandar!
Estou sujeito à autoridade de meus chefes, e tenho soldados às minhas ordens! Digo a um:“Vai!” E ele segue o rumo que indiquei. Digo a outro: “Vem cá!” E ele se aproxima de mim!
Basta, pois, Senhor, uma só palavra Vossa, e meu servo será salvo.
Ouvindo isto, Jesus se admirou; e, voltando-se para o povo que o seguia, disse:
— Em verdade, em verdade eu vos digo que nem em Israel achei tão grande fé.
E disse ao bom centurião:
— Vai, e faça-se como tu crês!
E, naquela mesma hora, ficou curado o servo!Que restam dos versos famosos de Cláudio, o festejado poeta? Não! Os homens não se lembram mais das odes admiráveis que César elogiava e que os comediantes mais ilustres declamavam nos festins romanos.
Mas as palavras do bom-soldado são repetidas todos os dias, com profunda veneração, por milhares de lábios humildes!
— E por quê?
— Porque as palavras do poeta eram despidas de sinceridade, ao passo que as palavras do soldado foram proferidas com fé!
Escuta, meu filho, as palavras ditas com fé, para a salvação de uma alma, ficarão na lembrança dos homens per omnia saecula saeculorum!
Glória a Deus! Glória a Deus no mais alto dos Céus e paz, na terra, aos homens de boa vontade! Amém!

Fonte: Malba Tahan, Novas Lendas Orientais. Com adaptações.

sábado, 22 de dezembro de 2012

O verdadeiro significado do Natal




Difícil é, num mundo marcado pelo laicismo, ter bem presentes o autêntico significado do Santo Natal e o benefício incomensurável que representou
para os homens a Encarnação da Segunda Pessoa da
Santíssima Trindade.


E o Verbo Se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1, 14). Desse modo singelo resumiu o Discípulo Amado o maior acontecimento da História. Suas despretensiosas palavras sintetizam o rico e insondável conteúdo do grandioso mistério comemorado a cada 25 de dezembro: na obscuridade das trevas do paganismo, raiou a aurora de nossa salvação. Fez-Se homem o Esperado das nações, Aquele que tinha sido anunciado pelos profetas.


Cenário tomado pelo sobrenatural


Na noite em que Jesus veio ao mundo, pairava sobre Belém uma atmosfera de paz e alegria. A natureza parecia estar em júbilo enquanto, dentro de uma gruta inóspita, um santo casal contemplava seu Filho recém-nascido.

Ela é a Mãe das mães, concebida sem pecado original, criatura perfeita, na qual o Criador depositou toda a graça. Ao seu lado encontra-se São José, esposo castíssimo, varão justo cujo amor a Deus, integridade e sabedoria o tornam digno de tão augusta Esposa. E a Criança que ambos contemplam é o próprio Deus, que assume nossa natureza para dar a maior prova possível de seu amor à humanidade.

Quão sublime atmosfera envolvia aquele cenário paupérrimo! O ambiente no qual nasceu o Menino Deus devia estar tão tomado pelo sobrenatural que, se alguém tivesse a dita de entrar naquela gruta, ficaria imediatamente arrebatado por toda sorte de graças.

Foi o que ocorreu com os pastores. Após o aviso dos Anjos, correram em direção à gruta e lá encontraram o Rei do Universo deitado sobre palhas. Abismados pela grandeza dessa cena, que contemplavam também com os olhos da Fé, não tiveram outra atitude senão a da adoração. Que extraordinária dádiva receberam, sendo os primeiros a contemplar o Criador do Céu e da Terra feito homem, envolto em faixas, numa manjedoura!

Deus quis apresentar-Se de forma exemplarmente humilde

Considerando as imponentes manifestações da natureza que acompanhavam as intervenções de Deus no Antigo Testamento — o mar se abre, o monte fumega, o fogo cai do céu e reduz cidades a cinzas —, resulta surpreendente constatar a humildade e discrição com que Cristo veio ao mundo.

Não teria sido mais condizente com a grandeza divina que, na noite de Natal, sinais magníficos marcassem o acontecimento no Céu e na Terra? Não poderia, ao menos, ter nascido Jesus num magnífico palácio e convocado os maiores potentados da Terra para prestar-Lhe homenagens? Bastar-Lhe-ia um simples ato de vontade para que isso acontecesse...

Mas, não! O Verbo preferiu a gruta a um palácio; quis ser adorado por pobres pastores, ao invés de grandes senhores; aqueceu-Se com o bafo dos animais e a rudeza das palhas, em lugar de usar ricas vestes e dourados braseiros. Nem mesmo quis dar ordem ao frio para que não O atingisse. Num sublime paradoxo, desejava a Majestade infinita apresentar-Se de forma exemplarmente humilde.

Pois, apesar das pobres aparências, Aquele Menino era a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. NEle dava-se a união hipostática da natureza divina com a humana, conforme explica o renomado padre Boulenger: “União é o estado de duas coisas que se acham juntas. Ela pode realizar-se ora nas naturezas, por exemplo, quando o corpo e a alma unem-se para formar uma só natureza humana; e ora na pessoa, quando se unem duas naturezas na mesma pessoa. Esta última união chama-se hipostática, porque, em grego, os dois termos, hipóstase (suporte) e pessoa, têm igual significação teológica”.

E, depois da união, essas duas naturezas permaneceram perfeitamente íntegras e inconfundíveis na Pessoa de Cristo, que não é humana, mas divina. Por esse motivo é Ele chamado Homem-Deus.


Abismo intransponível


Mas, por que quis a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade encarnar-Se em uma tão inferior natureza? Os nossos primeiros pais foram criados no Paraíso Terrestre em estado de inocência original, portanto em justiça e santidade. Além disso, na sua infinita bondade, Deus conferiu a Adão dons de três qualidades: naturais, estando todas as propriedades do corpo e da alma perfeitamente ordenadas para alcançar o seu fim natural; sobrenaturais, a graça santificante, ou seja, a participação na própria vida de Deus, e a predestinação à visão de Deus na eterna bem-aventurança; e preternaturais, tais como a ciência infusa, o domínio das paixões e a imortalidade, que constituem o dom de integridade.

Como contrapartida a esses imensos benefícios, foi apresentada ao homem uma prova.

Devia ele cumprir de modo exímio a lei divina, guiando-se pelas exigências da lei natural gravada no seu coração, e respeitar uma única norma concreta que Deus lhe dera: a proibição de comer do fruto da árvore da ciência do bem e do mal, plantada no centro do Jardim do Éden (cf. Gn 2, 9-17).

Narra-nos a Sagrada Escritura como a serpente tentou Eva, como caíram nossos primeiros pais e como foram expulsos do Paraíso (cf. Gn 3, 1-23). Em consequência do pecado, boa parte desses privilégios lhes foram retirados. Mas Deus, em sua infinita misericórdia, manteve-lhes os privilégios naturais, como descreve o douto padre Tanquerey: “Contentou-Se de os despojar dos privilégios especiais que lhes tinha conferido, isto é, do dom de integridade e da graça habitual: conservam pois, a natureza e os seus privilégios naturais. É certo que a vontade ficou enfraquecida, se a compararmos ao que era com o dom de integridade; mas não está provado que seja mais fraca do que teria sido no estado de natureza”.

O Pecado Original abriu entre Deus e os homens um abismo intransponível. As portas do Céu se fecharam e o homem contingente só podia oferecer a Deus uma reparação imperfeita da ofensa cometida. E o Filho ofereceu-Se ao Pai para, “fazendo-Se obediente até a morte, e morte de cruz” (Fl 2, 8), restituir ao homem a graça perdida com o pecado. O próprio Criador fazia-Se criatura para, com uma generosidade inefável, saldar nossa dívida.


O caminho da glória passa pela Cruz


Entretanto, por que quis Jesus sofrer o desprezo dos seus coetâneos e os tormentos da Paixão? Estando hipostaticamente unido à Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, qualquer gesto da Sua natureza humana poderia ter redimido a humanidade inteira. Um simples ato de vontade de Cristo teria bastado para obter de Deus o perdão de todos os nossos pecados.

Mais uma vez, deparamo-nos com um sublime paradoxo. Com o exemplo de Sua Vida e Paixão, queria Jesus ensinar-nos que, neste vale de lágrimas, a verdadeira glória só vem da dor. E como o Pai desejava para Seu Filho o máximo grau de glória, permitiu que Ele passasse pelo extremo limite do sofrimento.

“O Filho do homem veio, não para ser servido, mas para servir e dar sua vida em resgate de muitos” (Mt 20, 28). Já na manjedoura em Belém, nosso Salvador estava ciente de ter vindo ao mundo para expiar nossos pecados. É esse o motivo pelo qual em muitos presépios o Menino Deus nos é apresentado com os braços abertos em cruz. Durante toda a sua vida, de Belém ao Gólgota, Jesus não fez outra coisa senão avançar ao encontro do Sacrifício Supremo que Lhe acarretaria o fastígio da glória.


A Terra toda foi renovada


Pode haver ser humano mais frágil do que uma criança, habitação mais simples do que uma gruta e berço mais precário do que uma manjedoura? Entretanto, a Criança que contemplamos deitada sobre palhas na gruta de Belém haveria de alterar completamente o rumo dos acontecimentos terrenos.

Afirma o historiador austríaco João Batista Weiss: “Cristo é o centro dos acontecimentos da História. O mundo antigo O esperou; o mundo moderno e todo o porvir descansam sobre Ele. A Redenção da humanidade por Cristo é a maior façanha da História universal; sua Vida, a memória mais alta e bela que possui a humanidade; sua doutrina, a medida com que se há de apreciar todas as coisas”.

Difícil é, num mundo marcado pelo relativismo e pelo laicismo — quando não pelo ateísmo —, ter bem presentes o verdadeiro significado do Santo Natal e o benefício incomensurável que representou para os homens a Encarnação da Segunda Pessoa da Santíssima Trindade.

Cristo era o varão prometido a Adão logo depois de sua queda, o Messias anunciado durante séculos pelos profetas. Mas a realidade transcendeu qualquer imaginação humana: quem poderia excogitar que Ele seria o próprio Deus encarnado? A vinda de Jesus ao mundo não só abriu-nos as portas do Céu e nos trouxe a Salvação, mas também renovou toda a Terra. Diz São Tomás que Nosso Senhor quis ser batizado, entre outras razões, para santificar as águas. E o mesmo aconteceu com todos os outros elementos: a terra foi santificada porque seus divinos pés a pisaram; o ar, porque Ele o respirou; o fogo ardeu com maior vigor e pureza. Podemos sem dúvida dizer que este nosso mundo nunca mais foi o mesmo depois de nele ter vivido, feito homem, o próprio Criador.

Não é por acaso que se contam os anos a partir do nascimento de Cristo, pois Ele, realmente, divide a História em duas vertentes. Antes dEle a humanidade era uma, e depois passou a ser diametralmente outra. São duas histórias. Quase poderíamos afirmar serem dois universos! (Revista Arautos do Evangelho, Dez/2009, n. 96, p. 19 à 21)


segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Fatos prodigiosos do dia de Natal






          São Boaventura, frade franciscano que viveu no século XIII, recebeu o título de Doutor Seráfico devido à elevação e clareza de sua doutrina. É de sua autoria o Sermão XXI  No nascimento do Senhor , pronunciado na igreja de Santa Maria de Porciúncula, o qual se baseia, segundo atesta o próprio santo, em diversas descrições antigas.
 
Apresentamos abaixo uma tradução do texto original latino.
“São estes, segundo diversas descrições, os milagres manifestados ao povo pecador no dia da natividade de Cristo:
Primeiro:  Uma estrela brilhantíssima apareceu no céu, do lado do Oriente, e nela se via a figura de um belíssimo Menino em cuja cabeça refulgia uma Cruz, para manifestar que nascia Aquele que vinha iluminar o mundo com sua doutrina, sua vida e sua morte.
Segundo:  Em Roma, ao meio-dia apareceu sobre o Capitólio, junto ao sol, um círculo dourado  visto pelo imperador e pela Sibila  tendo ao centro uma Virgem belíssima, portando um Menino, a fim de manifestar que Aquele que nascia era o Rei do mundo, que Se dava a conhecer como o «resplendor da glória do Pai e a figura da sua própria Substância» (Hebr. 1,3). Vendo este sinal, o prudente imperador ofereceu incenso ao Menino, e recusou desde então ser chamado deus.
Terceiro:  Em Roma desmoronou o templo da paz, a respeito do qual, ao ser construído, os demônios se perguntavam quanto tempo duraria; tendo-lhes sido respondido: até o momento em que uma Virgem dê a luz. Este foi um sinal de que nascia Aquele que haveria de destruir os edifícios e as obras da vaidade.
Quarto:  Uma fonte de azeite de oliveira irrompeu em Roma e fluiu abundantemente, por muito tempo, até o rio Tibre, para ficar patente haver nascido a fonte da piedade e da misericórdia.
Quinto:  Na noite da Natividade, as vinhas da Engadda, que produzem bálsamo, floresceram, cobriram-se de folhas e produziram licor, para significar que nascia Aquele que faria o mundo florescer, reverdecer e frutificar espiritualmente, e atrair com seus odores o mundo inteiro.
Sexto:  Cerca de trinta mil rebeldes foram mortos pelo imperador, a fim de manifestar o nascimento d'Aquele que sujeitaria o mundo inteiro à sua Fé e arremessaria os rebeldes no inferno.
Sétimo:  Todos os sodomitas, homens e mulheres, morreram por toda a terra, conforme disse São Jerônimo, comentando o salmo «a luz nasceu para o justo», para evidenciar que Aquele que nascia vinha reformar a natureza e promover a castidade.
Oitavo:  Na Judéia um animal falou, como também dois bois, para que se compreendesse que nascia Aquele que aos bestiais transformaria em racionais.
Nono:  No momento em que a Virgem deu a luz, todos os ídolos do Egito se espatifaram, segundo o sinal que Jeremias dera aos egípcios quando esteve entre eles, para que se entendesse que nascia Aquele que era verdadeiro Deus, único a ser adorado com o Pai e o Espírito Santo.
Décimo:  Logo que o Menino nasceu e foi reclinado no presépio, um boi e um asno ajoelharam-se e, como se fossem dotados de razão, O adoraram, para que se compreendesse que nascia Aquele que a seu culto chamava o povo judeu e os gentios.
 
Undécimo:  Todo o mundo gozou da paz e se colocou em ordem, para que ficasse manifesto que nascia Aquele que amaria e promoveria a paz universal e marcaria os seus eleitos para a eternidade.
Duodécimo:  No Oriente três sóis apareceram, e aos poucos se transformaram em um só corpo solar, pelo que se mostrava que se aproximava do mundo o conhecimento da Unidade e Trindade de Deus, e também que a Divindade, a Alma e a Carne em uma só Pessoa convergiram.
 

  Por tudo isto, nossa alma deve bendizer a Deus e venerá-Lo porque nos libertou e sua Majestade, com tão grandes milagres, se manifestou a nós, povo pecador”.


terça-feira, 16 de outubro de 2012

Santa Edwiges, apoio certo nos momentos difíceis


Ela nasceu em plena Idade Média, no ano de 1174 numa região chamada Silésia, que ficava entre a Alemanha e a Polônia.
Seus pais eram nobres e deram à pequena Edwiges uma cuidadosa educação, baseada na Fé e no amor a Deus e ao próximo.
Naquela época as moças casavam-se muito cedo e, com apenas 12 anos, Edwiges casou-se com o Duque da Silésia, Henrique, que depois foi também Duque da Polônia.
Esposa exemplar, a Duquesa Edwiges em pouco tempo conquistou todos os que estavam sobre suas ordens, através da forma carinhosa de tratá-los. Transformou seu lar num grande templo de Deus. Fiel ao Mandamento divino, ela foi mãe pela primeira vez aos treze anos e teve, no total, seis filhos. Aos 32 anos, com o consentimento de seu marido, fez o voto de castidade.
Seu espírito de oração e sua profunda intimidade com o sobrenatural robusteciam sua fé e seu vigor nas dificuldades. Para alcançar a conversão dos pecadores, submetia-se ao sacrifício de jejuns diários, limitando-se a comer alguns legumes secos nos Domingos, Terças, Quintas e Sábados. Nas Quartas e Sextas-feiras somente pão e água.
No tempo do Advento e da Quaresma, Edwiges se alimentava só para não cair sem sentidos. O esposo não aceitava aquela austeridade. Numa Quarta-feira de Quaresma ele esbravejou por não haver vinho à mesa, mas somente água. Edwiges então ofereceu-lhe uma taça com água e ao entregá-la ao marido, estava transformada em vinho. Este foi um dos muitos milagres que ela realizou.
Algum tempo depois Edwiges caiu vítima de uma grave enfermidade. Foi preciso que Guilherme, Bispo de Módena, representante do Papa para aquelas regiões, exigisse com uma severa ordem a interrupção de seu jejum. A Santa obedeceu, mas ela mesma dizia que isto era mais mortificante do que a sua própria doença.
Com o passar do tempo Edwiges desapegou-se das coisas materiais e foi morar com seus amigos nas dependências do Mosteiro.
A Duquesa Edwiges rezava diariamente o Ofício Divino na Capela do Castelo, nunca o abandonando mesmo diante das maiores dificuldades. Era comum os nobres assistirem a Santa Missa em seu próprio castelo, mas ela fazia questão de ir à Igreja assistir o Santo Sacrifício junto com o povo.
Seu amor ao Santíssimo Sacramento era algo admirável. Isto a levava a assistir não apenas uma Missa ao dia, mas todas as Missas que pudesse se fazer presente.
Grande admiradora de São Bernardo de Claraval. Ela fazia a constante meditação da Paixão e Morte de Jesus e levava as pessoas da corte a fazerem o mesmo.
Como Duquesa da Silésia e da Polônia, ela espalhou por toda a parte a devoção à Santíssima Virgem. Costumava levar consigo uma pequena Imagem de Nossa Senhora, e, de vez em quando a colocava diante de si para rezar. Com esta imagem ela abençoava os doentes e necessitados, alcançando-lhes a cura.
No momento de sua morte, Santa Edwiges segurava com tanta força esta imagem, que não a conseguiram tirar de sua mão e assim ela foi sepultada com a Imagem de Nossa Sernhora na mão esquerda. Anos depois, quando foi exumada, os três dedos que seguravam a imagem estavam intactos.
Edwiges dedicou toda sua vida na construção do Reino de Deus. Exerceu fortes influências nas decisões políticas tomadas pelo marido, interferindo na elaboração de leis mais justas para o povo. Junto com o marido construiu Igrejas, Mosteiros, Hospitais, Conventos e Escolas. Por isto, em algumas representações a Santa aparece com uma Igreja entre as mãos.
Além da oração e da penitência, a Duquesa destacava-se por seu amor aos pobres e sofredores. Encontrando duas mulheres desempregadas, convidou-as a cozinhar para os pobres em seu castelo. Na realidade a própria duquesa alimentava-se da comida preparada para os indigentes.
Nobre e de finíssima educação, Santa Edwiges era, entretanto, modelo de humildade. Além do jejum, ela usava a disciplina e o cílício, privava-se do sono e andava muitas vezes descalça nas regiões nevadas de seu país.
Ela tinha um carinho especial pelas mulheres e crianças abandonadas. Encaminhava as viúvas para os conventos onde estariam abrigadas em casos de guerra e as crianças para escolas, onde aprendiam um ofício. Era misericordiosa e socorria também os endividados. Em certa ocasião, quando visitava um presídio, ela descobriu que muitos ali se encontravam porque não tinham como pagar as suas dívidas. Desde então, Edwiges saldava as dívidas de muitos e devolvia-lhes a liberdade. Procurava também para eles um emprego. Com isto eles recomeçavam a vida com dignidade, evitando a destruição das famílias em uma época tão difícil como era aquela do século 13.
Assim, Santa Edwiges, é considerada a Padroeira dos pobres e endividados e protetora das famílias.
Depois da morte do marido e tendo perdido quase todos os filhos, Santa Edwiges foi morar no convento cirterciense, dedicando inteiramente sua vida para ajudar os pobres e necessitados, além de libertar os prisioneiros e unir as famílias.
Pouco tempo depois, os mongóis invadiram a Polônia. Seu filho Henrique II preparou-se para enfrentar os inimigos. Porém, Santa Edwiges pediu que ele esperasse a chegada dos reforços de seu exército. Não dando ouvidos aos conselhos da mãe, Henrique partiu para o combate e morreu no campo de batalha em abril de 1241
Ao saber da notícia da morte do filho, Edwiges, voltou os olhos ao céu e disse: “Agradeço a ti, Senhor, por teres sido tão bom para comigo e ter-me dado um filho que sempre me amou, respeitou nunca deu motivo de tristeza. Embora eu desejasse tê-lo vivo, sei que ele está unido ao Salvador e com ele eu me uno também. Humildemente recomendo a Ti, Senhor, a sua alma”.
No ano seguinte, 1243, Edwiges adoeceu várias vezes e em uma delas encontrou-se realmente muito debilitada. Pediu ao Padre Mateus, monge cisterciense, que lhe administrasse a Sagrada Unção dos Enfermos. Assim ela se prepara para a passagem desta vida para a eternidade. Foram dias de muitas orações. Edwiges recebeu visitas de muitos Santos. Finalmente no dia 15 de Outubro de 1243 a Duquesa Edwiges da Silésia deixou este mundo, entrando no Reino dos Céus. Como no dia 15 de Outubro celebra-se Santa Teresa de Ávila, a comemoração de Santa Edwiges passou para o dia 16 de Outubro.
Partindo desta terra, Santa Edwiges mostrou a todos que, continuando a vida após a morte, a pessoa verdadeiramente santa faz por seus irmãos muito mais do que fazia na terra. Se em vida ela auxiliava os pobres, doentes, os desempregados e os endividados de seu reino, subindo aos céus ela continua auxiliando não só os de seu reino mas os de todo o mundo. Se temos alguma dificuldade em nossa vida, em nossa família, recorramos com confiança a Santa Edwiges e tenhamos a certeza de que ela será nossa aliada junto a Deus, por intermédio de Maria.

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