sábado, 22 de junho de 2013

Mais alguma coisa?


Por Lamartine de Hollanda Cavalcanti Neto
            
      Um bilionário que estava muito contente com o nascimento de sua filhinha resolveu comprar um presente para ela. Mas queria que fosse um presente muito especial. Tão especial que ninguém pudesse sequer perguntar se poderia haver algo melhor.
            Dirigiu-se, então, à maior loja de sua cidade, a qual vendia praticamente de tudo. Depois de muito procurar, escolheu uma jóia caríssima. O vendedor, um jovem calmo e atencioso, ao terminar a venda, perguntou-lhe: “Mais alguma coisa?”
            Por dentro, o ricaço se indignou e pensou: “Como mais alguma coisa?! Quer dizer que este rapazinho aqui acha que isto não basta? Bem... Se ele acha isso, o que acharão meus amigos, ricos como eu? Vou comprar mais algo, então”.
Aborrecido, explicou que estava comprando um presente para sua filhinha recém-nascida, e que queria o artigo mais caro que a loja tivesse. Depois de procurarem bastante, encontraram um automóvel de luxo, caríssimo, do qual só existiam 4 exemplares no mundo. O homem o comprou no ato.
            O vendedor, sem entender como a criancinha iria usar o presente, terminou a negociação e novamente indagou: “Mais alguma coisa?”
            O nababo ficou vermelho. Quase explodiu com o rapaz, mas acabou se controlando. Pensou: “Será possível? Se este simplório aqui está achando que isto não basta, o que dirão os meus colegas?”. Quase gritando, falou: “Olhe aqui! Não quero nem saber o preço. Quero que você encontre o produto mais caro que sua loja vende, vendeu ou venderá! Não me faça perder mais tempo”.
            O rapaz pediu-lhe, então, que fosse com ele ao departamento de imóveis, pois tinha ouvido dizer que havia uma ilha à venda há vários anos, cujo preço era tão caro que nem os maiores magnatas do petróleo tinham podido comprar.
De fato, ela era tão grande, tão rica em belezas naturais, em edificações suntuosas, plantações, animais e outras benfeitorias, que ninguém conseguia pagar seu preço. “Eu compro! Eis aqui o cheque!”.
O vendedor respondeu: “Muito obrigado, senhor. E... mais alguma coisa?”
O ricaço passou mal. Ficou pálido e quase desmaiou. Enquanto se recuperava, ajudado pelo jovem, pensou: “Já sei! Vou mandá-lo procurar o artigo mais caro do mundo. Quero ver se depois dessa alguém ainda vai perguntar se posso dar mais alguma coisa!”
            Dito e feito, o endinheirado e o jovem passaram o resto da tarde pesquisando pela internet, até encontrarem o produto mais caro que puderam. Tratava-se de uma nave espacial novinha em folha que nenhuma potência mundial tinha conseguido comprar, e por isso estava à venda num leilão internacional. Via internet, o milhardário a arrematou, deixando o jovem preocupado com o risco que o bebê passaria nas viagens interplanetárias que fizesse.
            Terminada a operação, o comprador se virou para o rapaz e disse: “Agora chega! Você não vai me perguntar se quero mais alguma coisa! Não é possível encontrar nada mais caro para eu comprar!”
            O balconista respondeu: “Não diga isso, senhor. Se meu patrão ouvir, ele vai me mandar embora. Porque ele obriga todos os vendedores a perguntar sempre ao freguês se deseja mais alguma coisa no final da venda”.
            “Ah, então é isso? Pois amanhã vou comprar essa loja e vou mandar o seu patrão embora! Onde já se viu? Depois do que eu comprei para minha filhinha, não se pode perguntar se posso dar mais alguma coisa para ela! Ou você ainda acha que pode?”
            Embaraçado, o moço respondeu: “Bem... se o senhor me pergunta, eu sou obrigado a responder que sim... Mas por favor, não vá se aborrecer...”
            “Como!? O que é que se pode dar a mais para minha filha do que isso tudo que já dei? Você está querendo que eu compre o mundo inteiro e dê para ela?
            “Não, senhor. Porque por mais que o senhor procure, sempre encontrará alguma coisa a mais que possa comprar e oferecer”.
            “O que você acha que pode ser dado a mais, então?”, disse o cliente.
            Com serenidade, o jovem respondeu: “O Criador de tudo o que o senhor comprou ou possa imaginar comprar”.
            “Não brinque comigo, rapaz”, retrucou o homem. “Você não está vendo que sou uma pessoa importante? Como é que eu posso dar o próprio Deus à minha filha?”
            “Perdoe, senhor, não tenho a intenção de ofendê-lo”, disse o rapaz com seriedade. “Na realidade, o senhor não pode dar o Criador para ela, mas Ele pode e quer dar-Se a Si mesmo. Permita-me perguntar-lhe: sua filha já é batizada?”
            “Como? Batismo? Eu... eu... eu não tinha pensado nisto ainda. De fato, preciso organizar uma festa muito grande, para chamar a atenção de toda a sociedade e...”
            “Não, senhor. Não é disso que falo. Se o senhor me pergunta qual o maior presente que pode dar à sua filhinha, eu lhe respondo sem hesitação: é o próprio Deus, Criador de todas as coisas visíveis e invisíveis, cujo Reino não terá fim. Quando uma pessoa é batizada, o próprio Deus vem habitar nela e a transforma num templo, onde reside a Santíssima Trindade”.
            “No momento em que a pessoa é batizada”, continuou o vendedor, “Deus a adota como Sua própria filha, e lhe dá o direito de receber por herança eterna tudo o que pertence a Ele mesmo. E adotando-a, a faz participar da Sua própria natureza divina, comunicando-lhe Sua própria vida eterna e sobrenatural”.
“Deus é de tal maneira a própria Bondade, que ainda que a pessoa no futuro venha a perder esta vida da graça, devido ao pecado, ela pode recuperá-la através da Confissão, além de poder aumentá-la através da Comunhão, dos outros Sacramentos e da oração”.
“Dar Deus a alguém é um presente tão grande, tão insuperável, que apesar de ser onipotente, nem Ele poderia dar um presente maior”, concluiu o jovem.
            O bilionário calou-se. Ficou pensativo um momento, levantou-se, deu um abraço no rapaz e lhe disse: “Muito obrigado, meu filho. Você tem toda razão. Reze por mim para que não só eu possa dar esse tesouro incalculável para minha filha o quanto antes, como possa recuperá-lo para minha própria alma”.