quinta-feira, 20 de outubro de 2011

TEATRO: O Filho Pródigo




Em terras muito distantes morava um homem que tinha dois filhos... Um dia, o mais novo aproximou-se do pai e disse:

- “Pai, estou cansado da vida monótona e sem graça desta fazenda... Todos os dias são iguais!... Cresci, não sou mais criança. Eu quero outras coisas que esta casa não me pode dar... Pai, dai-me a parte da herança que por direito me pertence... já tenho pronto meu cavalo, ainda amanhã quero partir!”
Por mais que o pai insistisse, o filho pródigo não quis voltar atrás.
E assim, a contragosto, o pai se viu forçado a repartir entre os dois filhos a sua fortuna.
Assim, numa triste e nevoenta manhã, em lágrimas amarguradas o pai vê seu filho afastar-se em meio às poeiras que o trote do cavalo levanta na estrada. 


A última curva, último olhar... O pai busca ainda uma última vez os olhos do filho - aquele olhos tão claros, que ele acompanhara desde o berço - e com inenarrável angústia sente esse olhos frios... sem dor, sem tristeza sem mesmo vacilação...

O Filho Pródigo


Passaram-se os dias, os meses e os anos. E nunca mais ninguém viu, e nem mesmo ouviu falar do imprudente jovem.
Entretanto, ele havia se estabelecido num lugar muito distante.


Aí, o filho pródigo passou a viver entre pessoas que tinham costumes muito diferentes daqueles que seu pai lhe havia ensinado. Como trazia farto ouro e boa prata em sua bolsa, não tardou em cercar-se de amigos. Amigos... Amigos da riqueza e do prazer, amigos cuja sinceridade não excedia o tamanho de uma moeda.


E nessa terra, nessa companhia, sem pensar e nem prever, o filho pródigo esbanjou tudo numa vida desenfreada.


Quando tinha gasto tudo o que possuía, houve uma grande seca e terrível fome naquela região, e ele, então sem recursos, começou a passar necessidade. Tão rapidamente como haviam surgido, todos os seus falsos amigos desapareceram.

Impelido pela fome e pela necessidade, vagou dias pelas fazendas, à procura de emprego. Ai! Ele, que sempre tivera tudo à mão, nada sabia fazer, e em todas as partes os exigentes capatazes recusavam aquelas mão fracas e inúteis.
Por fim, percorrendo a última e pior estrada, na menor e mais pobre aldeia, chegou à última e mais suja das casas, onde um velho e repugnante homem finalmente o aceitou a trabalhar.
- “Ah, pele frágil, que mãos finas tem! Vadio e ordinário, que nunca trabalhaste! Já tenho meus empregados, mas se queres ficar aqui, cuida dos meus porcos, mas cuida bem deles, que valem mais do que ti! Um dia essa carne trará alegria a um banquete, e nem sequer isso, tu és capaz de fazer! Vai, e se trabalhas bem, no fim do dia te dou os restos da mesa de meus empregados!”
Mas quase nada restava, e o filho pródigo quase nada comia.

Passaram-se dias nesse repugnante trabalho, e numa tarde, enquanto alimentava os porcos veio-lhe a idéia de que aqueles animais alimentavam-se melhor do que ele. E a esse miserável rapaz, esquecido de sua dignidade de ser humano, ocorreu de roubar e comer a nojenta lavagem de que se alimentavam os porcos. Neste momento, chegou o dono dos porcos e gritou:
  • O quê, leproso!!! Ainda quer roubar a comida de meus porcos?? Ladrão vagabundo, que não merece nem sequer o pão seco que te dou! Se te pego roubando de novo, te mando queimar as mãos! Nunca, nunca, nem pense mais em roubar! Essa comida é para os meus porcos, e não para você, verme infame!
Entrou o jovem entrou em si e refletiu:
- “Aí está. Agora valho menos que um porco. Ai, onde fui parar! Nunca, jamais imaginei que iria chegar a isso... Ai, minha antiga casa!... Ai! Meu pai, meu pai! Quantos empregados do meu pai têm pão com fartura, e eu aqui, morrendo de fome...
- Sim.... eu vou voltar!...Vou me levantar, e vou encontrar meu pai, e dizer a ele:

Pai, pequei contra Deus e contra ti; já não mereço que me chamem teu filho. Trata-me como um dos teus empregados.”
Desde que o filho partiu, o Pai, deitava-se pensando no seu filho. Sonhava imaginando a vida do seu filho e acordava com a esperança de reencontrá-lo. Todos os dias subia ao ponto mais elevado das suas terras e, com um olhar distante, percorria o horizonte à procura do seu filho. Onde estará o meu filho? O que estará fazendo?... E, de repente, um dia, um ponto perdido na distância, ia se aproximando e ganhando vulto1.
Seu coração disparou. Será ele?... Na medida em que as distâncias se encurtavam, a dúvida ia tornando-se em certeza. É ele! Sim, é ele! E começou a gritar: Meu filho! Meu filho! E os seus gritos se misturaram com outros lastimantes que pareciam o seu eco: Pai! Meu Pai!. E as suas vozes ficaram no aperto de um abraço.
Então o filho diz ao Pai:
- “Pai, pequei contra Deus e contra ti; já não mereço que me chamem teu filho...”
- Filho, não fales assim. Não importa o que aconteceu. O que realmente importa é que você está aqui meus braços.
O Pai soube fazer de um pecado arrependido uma festa, e assim, chamou os empregados:
- “Depressa, tragam a melhor túnica para vestir meu filho. E coloquem um anel no seu dedo e sandálias nos pés! Peguem um novilho gordo e o matem. Vamos fazer um banquete! Oh, meu Deus! Alegrem-se! Vejam todos! Este é meu filho desaparecido! Eu já o dava por morto, e agora ele tornou a viver! Estava perdido, e foi encontrado!!”
Vamos celebrar uma grande festa! Eu te recuperei! Tu estás agora ao meu lado! Que felicidade! O teu arrependimento e o meu perdão são agora a nossa alegria e o nosso prêmio” (Cfr. Lc 15, 11-32).



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1 LLANO CIFUENTES, Rafael, Deus e o Sentido da Vida, capítulo sobre o Filho Pródigo

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