terça-feira, 14 de junho de 2016

O orgulho e a humildade


Alexandre José Rocha de Hollanda Cavalcanti


O ser humano é criado para conhecer, amar e servir a Deus. Quem perde esta visão perde o verdadeiro sentido de sua vida. Portanto, uma vida dedicada a si mesmo ou a desejar ser admirado pelos outros é uma vida que se desvia de seu sentido real. O ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus será melhor quanto mais se assemelhe a Deus e pior quanto mais dessemelhante de Deus. É por isso que dizia Tomás de Kempis que ninguém é mais por que os outros o elogiam, nem menos porque os outros o critiquem. O que a pessoa é verdadeiramente o que ele é diante de Deus.
Quando consideramos esta realidade de nossa essência diante de Deus vemos que em verdade não somos nada, pois Deus existe sempre e nós nascemos um dia, vivemos alguns anos e depois deixamos de existir. Se nossa vida se volta só ao material, ao hoje, nos assemelhamos aos animais: vivemos para comer, beber e dormir... Porém, a vida humana tem um sentido de horizontes muito mais amplos. Nós vivemos para participar da grande obra de Deus, colaborando com sua criação e com o aperfeiçoamento das pessoas, de modo que cada um seja mais semelhante a Deus.
Os primeiros seres humanos, Adão e Eva, pecaram porque quiseram ser iguais a Deus, o que caracteriza seu pecado como um ato de soberba, que é a falta de verdade acerca de nossa posição verdadeira. Por isso, Adão e Eva, não reconhecendo sua verdadeira posição de criaturas de Deus, quiseram ser iguais a Deus, quiseram definir por sua própria vontade o que é bem e mal e não depender de Deus, e por isso pecaram e foram expulsos do Paraíso. A soberba está portanto na raiz do pecado original e na raiz de todo e qualquer pecado, conformando-se assim, como um dos piores pecados.
Da soberba nasce o orgulho, que é o “amor desordenado a sua própria excelência”. Tudo o que podemos ter de bom nos foi dado por Deus, portanto, é apropriar-se indevidamente do que é de Deus e apresentar como nosso. Em outras palavras o orgulho é roubar o que é de Deus e desejar aparecer diante dos outros com uma mentira, pois, como dizia Santa Teresa, “a humildade é viver na verdade” e portanto o orgulho é viver na mentira.
O orgulho é considerado um pecado capital, quer dizer, é cabeça de muitos outros pecados. Por isso é um dos pecados mais graves que uma pessoa pode cometer, pois a partir do pecado de orgulho nasce a vaidade, a arrogância, a impureza e até pecados mais graves.
Nosso Senhor Jesus Cristo ensinou o perdão: perdoou a mulher pecadora, perdoou o ladrão que foi crucificado com Ele, mas não perdoou o orgulho dos fariseus, os chamou de “sepulcros caiados”, pois eles queriam parecer bonitos e limpos para os outros, quando no fundo estavam cheios de maldade e de orgulho.

O orgulho leva a pessoa a aparentar ser o que não é, portanto faz do homem falso e hipócrita, leva à comparação e a querer destruir os outros que podem ser mais do que ele. Como dizia Salomão, o orgulho é falta de sabedoria e por isso, onde há soberba, há ignorância e onde há humildade, haverá sabedoria.
 
O orgulho leva inclusive à timidez, pois o orgulhoso não aceita que pode errar e com o passar do tempo começará a ter medo que os outros o critiquem, gerando com isso até problemas emocionais. O orgulho acaba com a paz de alma, pois o orgulhoso a todo momento vai estar preocupado com o que os outros estão pensando dele: sua felicidade não depende dele mesmo, mas da opinião dos outros. O orgulhoso procura ser o centro das atenções dos outros e com isso, chega a querer tomar o lugar do próprio Deus, pois o centro de todas as atenções da humanidade deve ser sempre nosso Criador.
Por outro lado, a humildade, que é o reconhecimento da verdade, é a virtude que dá a verdadeira paz e equilíbrio ao ser humano, pois reconhecendo suas fraquezas pessoais e que tudo que tem de bom foi recebido de Deus, a pessoa humilde procurará ser cada vez mais semelhante a Deus e com isso cumprirá o verdadeiro sentido de sua vida.
A humildade é a raiz de todas as virtudes, porque é a ausência do egoísmo que é o produtor de todos os vícios. A humildade é o caminho mais seguro para encontrar a Deus, pois a pessoa humilde não procura a felicidade onde ela não existe, mas a procura onde ela existe em plenitude.
Muitas vezes fazemos uma ideia falsa da humildade, pensando que ela nos rebaixa, mas é exatamente o contrário. A humildade –ensina Santa Teresa– nos dá a verdadeira grandeza que em vão procuramos fora de Deus, pois não existe nada mais elevado que estar diante de Deus e com Deus. Somente sendo humildes vamos encontrar a Deus. Por esta razão a humildade é uma virtude teologal, quer dizer, uma virtude que nos assemelha a Deus e nos une diretamente com Ele.
A humildade não consiste portanto em atitudes artificiais, em covardias, em tristeza, mas em conhecer a nós mesmos com os olhos de Deus, quer dizer, conhecer-nos verdadeiramente. A verdadeira humildade é a virtude que nos faz semelhantes Deus pois passamos a considerar a verdade e não desejamos ser iguais a Ele como Adão e Eva queriam, mas procuramos cada vez mais, reconhecendo nossa realidade pecadora, assemelhar-nos a Deus pela prática da virtude.
São Francisco de Sales ensina que existe um vínculo indissolúvel entre a humildade e a generosidade, que estão juntas e unidas uma à outra. Assim, a humildade reconhece que por si mesma não pode nada e a generosidade confere que confiando em Deus tudo podemos e por isso nos abrimos para ajudar ao próximo, quando o orgulho nos fecha sobre nós mesmos. Por isso o humilde é sempre alegre: pensa nos outros, ajuda os outros, vive para Deus. O orgulhoso é sempre triste: vive para si mesmo, está sempre buscando aparecer, está sempre dependente da opinião dos outros e se separa de Deus.
A humildade como raiz de todas as virtudes é a porta da felicidade. O orgulho, como raiz de todos os pecados e filho do egoísmo, é a porta da infelicidade.
Santa Teresa ensina que a humildade é a lucidez própria do amor e é o que faz com que o bem seja verdadeiramente bem. A humildade é assim a essência de todas as virtudes e a condição para receber todos os dons divinos.

Um comentário:

Gustavo Rocha de Hollanda Cavalcanti disse...

Parabéns!!! Excelente reflexão. Ser humilde é ser grande no serviço a Deus. Ser orgulhoso é estar preso à pequenez das vanidades pessoais.